Transtornos mentais - Histeria e estados-limite: quiasma. Novas perspectivas*

Quiasma, histeria e estado-limites

André Green**, Paris

Uma quiasma é um cruzamento, termo que se aplica tanto a figuras de retórica quanto a formações anatômicas. Contudo, a palavra “quiasma” contém a idéia de uma mudança de direções opostas em que, a priori, se pensaria num paralelismo. Foi por isso que escolhi essa imagem para falar das relações entre histeria e casos-limite.

Convém não esquecer a ordem de aparecimento dessas duas entidades: a histeria é conhecida desde a Antigüidade, está na origem da revolução psicanalítica, ao passo que os casos-limite apareceram mais recentemente, numa data difícil de precisar, mas que poderíamos situar por volta de meados dos anos 1950. 

Novo quadro conceitual - Quiasma

Em conseqüência da investigação psicanalítica profunda de certos pacientes, sentiu-se a necessidade de um novo quadro conceitual, pois o da neurose parecia inapropriado e, o da psicose, insuficientemente manifesto, de onde a denominação de “casos-limite”. Foi preciso que um certo tempo transcorresse até o momento em que a realidade clínica à qual o termo remete fosse reconhecida pelo conjunto da comunidade psicanalítica. 

O acordo não foi unânime, pois numerosas divergências de opiniões separam os autores. No entanto, com o passar do tempo, surgiu de vários lados a idéia de que poderia haver uma relação mais estreita do que parecia, à primeira vista, entre histeria e casos-limite. 

Isso ficou claro quando as descrições clínicas de ambos tornaram-se suficientemente precisas e convergentes para levar mais de um leitor a evocar possível ligação, sem que esta fosse estabelecida de forma explícita. Diante da multiplicação dos casos desse gênero, poderíamos até nos perguntar se hoje os estados-limite não desempenhariam, na paisagem psicopatológica contemporânea, um papel equivalente ao dos histéricos no momento em que Freud por eles se interessou. 

Em suma, seria o caso de se perguntar, sem por isso reduzir o problema a essa dimensão, se um certo Zeilgeist, 1 que tanta importância teve para a eclosão e o desenvolvimento da histeria outrora, não estaria em ação hoje também, sem dúvida com muitas diferenças, se comparado ao do passado. Pois, o que no começo parecia dizer respeito apenas a uma parcela reduzida de pacientes, tornou-se, com o passar do tempo, uma parte tão importante da população analítica que pode-se dizer, hoje, que forma seu núcleo.

 

Estudos sobre histeria

Inversamente, um olhar retrospectivo sobre vários trabalhos clássicos leva às vezes a questionar a validade do diagnóstico de histeria. Não é o caso da Dora de Freud, mas provavelmente o dos pacientes que aparecem nos Estudos sobre a histeria.  

Mas aqui, percebe-se que o leque de diagnósticos revela muitas diferenças. Além disso, a partir de uma certa época surgem muitos trabalhos que procuram diferenciar “bons” e “maus” histéricos ou, ainda, histerias “benignas” e “malignas”. 

 Nesse mesmo sentido, questiona-se o nível de fixação e de regressão em questão, genital ou oral. A despeito de seu polimorfismo lendário, o conceito de histeria, tal como é compreendido e reconhecido pela psicanálise, forma um conjunto melhor delimitado do que aquele designado pela expressão vaga de “estados-limite”.

 

Transtornos Somáticos - Histeria

Para começar, marquemos essas diferenças por meio de alguns traços simples. No tocante à histeria, ela oferece ao exame três problemas principais.

O primeiro é o de seu vínculo com a conversão. Esse sintoma, que ocupava o centro do quadro clínico no século XIX, se rarefez a ponto de se tornar excepcional, embora seu desaparecimento seja contestado pela verificação de sua presença em alguns casos ainda observados nos serviços de neurologia ou em certos contextos culturais. 

Em todo caso, hoje o exame da clínica e da teoria da histeria não pode mais partir daí. É algo que já se constata ao ler Inibição, sintoma e angtistia, de 1926, em que Freud fundamenta seu raciocínio comparativo entre as categorias clínicas tratando muito mais da fobia do que da histeria propriamente dita. 

Em segundo lugar, na obra de Freud, a histeria só alcança plena inteligibilidade na relação com a fobia e com a neurose obsessiva que, juntas, constituem o grupo das psiconeuroses de transferência. 

Trata- se, portanto, de um panorama do campo neurótico. A comparação com os estados- limite deve, por sua vez, levar em conta as relações de proximidade com aspectos clínicos situados fora do campo da neurose (psicoses, depressões, etc.). Nota-se, portanto, que cada entidade possui seu próprio sistema de relações, mais claramente perceptível do que o das relações que poderiam estabelecer entre si. 

Por fim, em terceiro lugar, se a histeria conserva um caráter proteiforme, embora sua figura principal não possa mais ser situada do lado da conversão, em torno do que podemos assegurá-la: as organizações do caráter? O vínculo com a depressão? O nível de fixação (genital ou oral)? O ego? O desejo? A relação de objeto? etc.

Esquizofrenia 

No tocante aos casos-limite, a denominação inicial que situa essas formas na vizinhança da esquizofrenia parece, com base na experiência, pouco fundamentada. Primeiro, ampliaram-se as menções sobre a esquizofrenia estendendo-a às psicoses em geral, e invocou-se a presença de uma estrutura psicótica latente, até mesmo de um “núcleo” psicótico, para esclarecer as particularidades desses pacientes. 

Com efeito, à medida que a literatura evoluía, notou-se que um certo número de estruturas há muito conhecidas e definidas de maneira autônoma vinham enriquecer o quadro dos casos- limite depressão, perversão, psicopatia e muitas outras. Portanto, também nos casos- limite detecta-se um caráter proteiforme.

 

Transtornos mentais - Manifestações sintomáticas X quadro conceitual

Tudo isso nos convida, tanto no caso da histeria como no dos casos-limite, a parar de confiar nas manifestações sintomáticas para definir um quadro clínico e a centrar nossos esforços na definição de um quadro conceitual que tente explicar o polimorfismo das manifestações e que, se possível, se mostre capaz de indicar os movimentos estruturais que levarão determinado sujeito a oscilar numa direção e não em outra. 

Essa ótica seria igualmente válida para a histeria e para os casos-limite. Convém esclarecer, no entanto, que essa ideia de uma precipitação — no sentido químico do termo — numa das direções possíveis da estrutura, embora se imponha na compreensão das manifestações da clínica da histeria, exige alguns comentários n oque concerne aos casos-limite. 

A própria noção de limite sugere a concepção de atravessar uma fronteira em que reencontramos a antiga ideia de casos situados nos limites da esquizofrenia ou da psicose, ameaçando provocar uma descompensação nessas afecções.

A experiência mostrou ser isso infundado e que, paradoxalmente, os casos- limite constituíam estruturas bastante estáveis a despeito ou por causa de sua instabilidade, e que era muito pouco comum vê-los cair de maneira duradoura em organizações psicopatológicas mais graves. 

Contudo, independentemente das reflexões e das observações que acabamos de fazer, é bem verdade que a comparação entre histeria e casos-limite se impõe muito mais à nossa mente do que aquela, igualmente legítima, com a neurose obsessiva. Esta relação histeria/casos-limite é mais intuitivamente justificada do que aquela, invocada no começo, entre casos- limite e psicose declarada. 

Isso não sugeriria a existência de uma inclinação por parte dos histéricos para evocar um funcionamento-limite? E, inversamente, quando se pensa numa personalidade-limite, uma tendência a vislumbrar certa relação com a histeria? É aqui, a meu ver, que volta a ser interessante considerar o limite um conceito, estendendo seu campo de ação tanto para a relação entre o ego e o objetivo, como entre as diversas instâncias do aparelho psíquico. 

Da mesma forma, se concordarmos em adotar um ponto de vista estrutural, o limite entrará igualmente em jogo entre as diversas entidades do universo psicopatológico. A nosografia psicanalítica deixaria de ser concebida como um catálogo de categorias estanques, e passaria a ser vista como um conjunto articulado e atravessado por movimentos dinâmicos que permitem imaginar tanto as relações entre as diversas entidades como as possibilidades de transformação de uma entidade em outra.

 

Síndromes mentais

Se, além dos casos-limite, pensarmos por exemplo nas diversas outras estruturas não-neuróticas pelas quais a experiência psicanalítica despertou interesse, tais como as personalidades narcísicas, certas estruturas depressivas ou psicopáticas, as síndromes mentais associadas às chamadas doenças psicossomáticas, sua reunião, que agrupamos provisoriamente sob a denominação de “estruturas não-neuróticas”, parece, à primeira vista, um conjunto bem heteróclito sem qualquer unidade. 

Mas se considerarmos esse mesmo conjunto sob o ângulo da clínica da histeria, impressiona o fato de essas diversas configurações poderem representar, cada qual, alguns dos principais pólos entre os quais se distribuem certas formas de descompensação da histeria, quando as modalidades do caráter ou da relação objetal não são mais suficientes para ligá-los. 

Nota-se, portanto, que a intuição clínica que levou a examinar essas duas entidades aparentemente distantes uma da outra poderia ter um fundamento mais justificado do que parece à primeira vista.

Esta exposição de motivos precederá as abordagens clínicas diferenciais das entidades comparadas e tentará propor uma teoria unificada que explique os conjuntos nos quais se inserem histeria e casos-limite, assim como as diferenças que os separam e o quadro conceitual que pode reuni-los.

Sentimos a necessidade de tomar certa distância em relação ao trabalho analítico para abordar os problemas de conjunto sugeridos pela comparação. Isso porque o exame detalhado da experiência analítica e da análise da transferência tende a tornar as distinções no espaço psíquico do enquadre analítico menos aparente. 

Em contrapartida, somente essa experiência, central na prática psicanalítica, nos permite apreender o fundamento de distinções sutis que a teorização será obrigada a esquematizar um pouco. Minha exposição vai se apoiar essencialmente nos dados da experiência psicanalítica propriamente dita. 

As linhas precedentes têm por único objetivo fixar um esquema geral de pensamento. Era necessário começar por ali à medida que a exposição pormenorizada dos frutos da investigação psicanalítica corre sempre o risco, no estado atual da teoria, de desembocar precocemente em divergências conceituais básicas.

 

Transtornos mentais - Objetivos

A tentativa de definir de forma precisa as relações entre histeria e casos-limite não pode desconsiderar um século de literatura psicanalítica no que se refere à primeira, e a metade de um, no que se refere aos segundos. Dadas as limitações desta exposição, não é possível passar em revista as opiniões dos autores cujos escritos deixaram marcas nas concepções de cada uma das afecções. 

Aliás, é digno de nota que, apesar de intuições e alusões quanto às relações entre essas duas entidades clínicas, nenhum estudo tenha considerado, de maneira sistemática e detalhada, os traços comuns e diferenciais das duas categorias. 

Portanto, esclareçamos desde já um ponto referente a essas relações. A histeria representa apenas uma fração do campo clínico bem mais extenso dos casos-limite. 

O mesmo problema poderia ser levantado no que se refere às obsessões e, por exemplo, os pacientes que apresentam uma problemática narcísica. Portanto, nosso propósito é apenas tratar da zona de intersecção entre histeria e casos-limite. Pois também é possível afirmar que a histeria possui traços próprios que não intervêm no estudo dessas relações mútuas.

É difícil definir com precisão a natureza dessas relações. Entre a neurose histérica simples e os casos-limite há toda uma série de intermediários, seu conjunto formando um continuum. Além disso, a existência de psicoses histéricas, descritas sobretudo pelos psiquiatras, revela a capacidade da histeria de se estender até mesmo para além dos casos-limite. Outros autores preferirão tentar traçar uma linha de demarcação mais clara, defendendo uma separação entre dois campos que mais se opõem do que justificam uma aproximação. Seja qual for a atitude adotada, não podemos prescindir de definições metapsicológieas.’

A histeria, sejam quais forem as suas variantes ou mesmo suas entradas transitórias ou conjunturais no campo da psicose, continua sendo por essência uma neurose, que coloca em primeiro plano no sujeito a problemática das relações entre amor e sexualidade. Nela, a questão do desejo é essencial, assim como a da escolha objetal, das identificações. A importância da vida fantasmática e emocional, da relação com o corpo e com a sensibilidade depressiva, encontram-se em primeiro plano.

Os casos-limite mantêm relações de intersecção com a histeria, podem apresentar todos ou parte dos traços que caracterizam a histeria, mas na verdade carecem de organização neurótica e lidamos aqui com formas de conflitos que, embora coloquem em jogo a problemática do amor (e nem sempre a da sexualidade), permanecem secundários em relação a outros aspectos, entre os quais se destacam a destrutividade, o masoquismo, o narcisismo. 

Se o ego do histérico sempre se mostrou com uma tendência particular à fragmentação e ao despedaçamento, em geral temporários, nos casos-limite essa ameaça pode se manifestar mais abertamente pela propensão à despersonalização e a facilidade com a qual o sujeito sucumbe a sentimentos de perseguição (sem perda da relação com a realidade) e à depressão podendo, às vezes, provocar regressões importantes, em geral relacionadas com fenômenos de dependência. 

 É comum assistirmos a descompensações transitórias que exigem hospitalizações com rupturas intermitentes da relação analítica ou psicoterapêutica. Costumam ser de curta duração, e sempre que a relação com o objeto transferencial tenha sido mantida, retornam em geral bem rápido ao estado anterior, possibilitando a retomada da relação analítica e até mesmo a interpretação, a posteriori, das razões e dos processos que provocam o baque. Em contrapartida, a lentidão e as dificuldades do processo de mudança são um fenômeno bastante regular nos casos-limite. O analista deve esperar um tratamento longo, difícil, semeado de armadilhas, com alternância entre regressões e pequenos progressos numa evolução em ziguezague. 

Uma das vantagens propiciadas pelo tratamento é conseguir uma maior autonomia que permita ao sujeito livrar-se do domínio de suas imagens parentais, sobretudo as da mãe. Antes de entrar nos detalhes da questão, gostaria de esclarecer o ponto de vista que adotarei. Não procurarei entender a histeria e os casos-limite em função da fixação num estágio do desenvolvimento ou numa relação de objeto. Ute Rupprecht- Schampera já fez isso, destacando a importância da fase de triangulação precoce derivada dos trabalhos de Margaret Mahler ede Ernest Abelin. 

Eu mesmo propus, para a interpretação de certos casos-limite, o conceito de bitriangulação, afirmando que as relações entre os três parceiros do conflito edipiano na verdade mascaram uma relação binária com um único objeto dividido em duas frações, boa e má. Tampouco compararei as diferentes abordagens teóricas: freudianas, kleinianas, lacanianas, etc. Proponho-me sobretudo a abordar um certo número de pontos que reunirão os aspectos clínicos e metapsicológicos que me levarão a contrapor o que se observa na histeria e o que se pode deduzir do tratamento dos casos-limite.

 

Estudo comparativo entre histeria e casos-limite

O risco de considerar sucessivamente os diferentes pontos em que a comparação entre histeria e casos-limite pode se mostrar frutífera é o de fornecer um quadro um tanto fragmentado da problemática em questão. Apesar disso, esperamos que no fim da apresentação desse panorama, estruturas de conjunto apareçam, de forma mais clara, em sua especificidade.

 

O conflito

Definir o conflito essencial nessas duas categorias é difícil, pois com o passar do tempo vimos que a histeria foi objeto de um desmembramento com o aparecimento das descrições relativas à existência de uma histeria oral que implica uma fixação pré- genital importante. Essas descrições estendiam uma ponte entre a teorização freudiana da histeria, com seu clássico nível genital, e sua reinterpretação por Melanie Klein, destacando a importância dos mecanismos de identificação projetiva e de identificação introjetiva de origem oral. 

Logo em seguida, a fixação ao seio materno aparecia com mais evidência na interpretação da transferência no histérico. Contudo, insisto em que, seja qual for a fenomenologia dos sintomas da histeria (inclinação toxicofílica, distúrbios de condutas alimentares com alternância de fases de anorexia e bulimia, condutas aditivas em relação a objetos, etc. ), a histeria continua, a meu ver, ligada a um conflito fundamental vinculado às reél‘es entre o amor genital e a sexualidade. 

A objeção previsível ao que acabo de afirmar consistiria em dizer que tal problemática é tão geral que poderia concemir a todos os nossos pacientes. Este é um argumento superficial, pois na histeria trata-se menos de amor do que da forma de amor e da prova de amor, por um lado, e de sua relação com a sexualidade e portanto com o desejo, por outro. 

É este o núcleo fundamental da histeria. Haverá quem considere que a esses aspectos clássicos somaram-se outros novos, sobretudo aqueles relacionados com a cena primitiva. Da mesma forma, houve quem insistisse em outros aspectos um pouco mascarados pela problemática amor-sexualidade. Sublinhou-se a importância do narcisismo e da sensibilidade à depressão. Voltou-se a atenção para o rancor do histérico (Khan, 1974), cujas recriminações incidiram, antes, sobre a incapacidade do objeto permitir o desenvolvimento do ego. Nos casos-limite, depararíamos sobretudo com manifestações que revelam a fragilidade das fronteiras do ego. 

Se, na neurose, é fácil colocar em evidência o papel da angústia de castração associada ã angústia de penetração (especificamente na mulher), nos casos-limite essas angústias são substituídas por formas que lhes correspondem ao nível do ego: angústia de separação — que também pode existir na histeria, mas que é bem mais rapidamente superada — e angústia de intrusão (Winnicott, 1965-1975) refletindo o temor da alienação e o medo de ficar sob o jugo de um objeto onipotente. Com efeito, o aparecimento dessas angústias está relacionado com um temor de desmoronamento (Winnicott, 1971) ou de invasão por um objeto hostil e agressivo. 

É aqui que se evidencia o papel do medo da catástrofe (Bion, 1970; Brenman, 1985), que pode levar a condutas projetivas ou incompreensíveis destinadas a desnortear o analista para escapar de sua influência, ou até a um “esforço para enlouquecer o outro” (Searles, 1977). Em todos esses casos, predomina o desejo de vingança ou de agressão, o que permite compreender que a destrutividade está no centro da problemática dos casos-limite. Resumindo, de modo sem dúvida um pouco esquemático, diremos que na histeria predominam os conflitos vinculados aos aspectos eróticos da psique, ao passo que nos casos-limite é a destrutividade que ocupa a frente da cena e tende a desnaturar ou a encobrir a problemática erótica.

 

O(s) trauma(s )

A questão do trauma, de Freud até hoje, é sem dúvida a que melhor reflete a evolução da clínica psicanalítica e dos problemas suscitados pela técnica contemporânea. Classicamente, é conhecida a natureza sexual do trauma em Freud no começo de sua obra. O fato de o trauma estar relacionado com a sedução ou com a fantasia de sedução não altera o essencial. Ele continua profundamente vinculado à sexualidade. Aliás, trauma real e fantasia, longe de excluir riiutuamente seus efeitos, geralmente os combinam. Em seguida, ainda nos tempos de Freud, o campo do trauma ampliou-se um pouco. 

A sexualidade deixou de ser a origem unívoca dele. Com Ferenczi (1982), a natureza do trauma se modificou e seus efeitos se agravaram. Não só a sexualidade deixava de ser a única coisa em questão, mas Ferenczi, defendendo sua concepção da confusão de línguas, descrevia uma modalidade despercebida do trauma, que colocava em questão a atitude do objeto (e, conseqüentemente, a do analista). Interpretava os efeitos do trauma ao nível do ego: inibições graves, siderações do aparelho psíquico, efeitos devastadores da incompreensão, da frieza, etc., sublinhando a profundidade dos danos. 

Aqui, o trauma está ligado tanto às respostas que o objeto não deu como àquelas que foram dadas de maneiras inapropriadas para satisfazer os desejos do adulto ou para evitar a aflição da criança. Depois de Ferenczi outros autores desenvolveram essa linha de pensamento, particularmente Winnicott. 

Em Melanie Klein a ênfase estava menos na resposta materna do que nas fontes endógenas do psiquismo. De qualquer maneira, pode-se resumir as coisas, numa simplificação inevitável, sublinhando o caráter abertamente sexual quase constante na histeria, em que as seduções direta ou simbolicamente incestuosas raramente deixam de estar presentes, e a localização no ego dos efeitos traumáticos ligados à influência materna nos casos-limite. Algumas teorias tenderão então combinar esses dois aspectos e tentarão a considerar, principalmente na mulher, as fixações incestuosas ao pai como defesas e recurso contra a relação com a mãe impregnada de rejeição precoce ou de fusão ambivalente, mantida e sustentada por uma atitude de inadequação ede incompreensão das necessidades da criança. 

É preciso sublinhar com bastante ênfase que as influências externas não devem de forma nenhuma levar a negligenciar a parte atribuível ao trabalho psíquico do sujeito. As fontes patógenas externas induzem distorções subjetivas importantes, mais difíceis de interpretar à medida que o sujeito se protege diante da patologia — inegável— do objeto do qual é dependente. 

Existe o risco de isso se repetir na transferência. Ora, a relação mal estabelecida entre o ego e o objeto pode, por sua vez, ser sexualizada, convidando a considerar o papel de uma homossexualidade qualificada de “primária” na relação entre a filha e a mãe. Não raro assistimos a relações passionais, numa idade adulta tardia, entre a mãe e a criança. Em geral trata-se da filha, mas o menino não escapa dessa sorte. Essas relações passionais tecem-se sobre o fundo de uma dependência para com as atitudes e os sentimentos da mãe que não passa com o tempo, mantêm recriminações mútuas intermináveis que irão se repetir na transferência. 

É fácil adivinhar a exigência de uma sede de amor jamais saciada, e sem dúvida jamais saciável, da criança e relação à mãe, que corresponde a uma demanda materna imperiosa, insuperável, quanto ao que esta espera do filho, a fim de que ele se conforme à imagem que ela tem dele, favorecendo a eclosão de um falso self(Winnicott, 1965). Nos casos-limite, tudo dependerá da maneira como o sujeito vive essa situação, ou seja, das reações defensivas que ela suscita nele e que podem ir da clivagem profunda até atitudes projetivas quase delirantes deslocadas para equivalentes simbólicos maternos, ou reações de profundo desespero que podem provocar tentativas de suicídio sérias o suficiente para colocar realmente em perigo a vida do sujeito. 

Às vezes, por ocasião de um abandono por um objeto que simbolize a mãe, pode-se assistir a regressões espetaculares, orais e anais, que provocam hospitalizações que, felizmente, são de curta duração. O alcance do trauma também obedece a fatores quantitativos. Embora isso seja indubitavelmente verdadeiro, resta ainda que as mudanças quantitativas acabam resultando em modificações qualitativas, como quando a desorganização atinge o ego, modificando o quadro no sentido dos casos- limite.

 

As defesas

Como se sabe, foi a propósito da histeria que surgiu para Freud a necessidade de postular o conceito de “defesa patológica”, que depois adotou o nome de recalca- mento. Muito se discutiu para saber se o recalcamento incidia apenas sobre as representações, sendo os afetos apenas reprimidos (concepção defendida por Freud em 1915), ou se também os afetos poderiam ser recalcados (concepção de Freud em 1923).

Na minha opinião, não há dúvida de que o trabalho do recalcamento só se realiza se os afetos forem reduzidos a um estado de insignificância. No entanto, houve quem afirmasse (Widlõcher, 1992) que, na esteira de Charcot, a histeria podia ser considerada uma doença da memória. Lembremos: “O histérico sofre de reminiscências”. O que é efetivamente traumático é o retorno da lembrança recalcada, mais do que o acontecimento traumático que teve de ser suprido do consciente. Contudo, à medida que a obra de Freud se desenvolvia, este foi levado a descrever outras defesas: a forclusão (Verwerfung ), a clivagem ou recusa da realidade(Verleugnung ), a negação (Verneinung ) que vieram se somar ao recalcamento (Verdrângung ). 

Propus reagrupar esse conjunto sob o nome de trabalho do negativo (Green, 1993). Embora seja verdade que a despeito da predominância do recalcamento no histérico pode-se constatar ocasionalmente a intervenção de outros modos, como a clivagem, o primeiro continua sendo o mais importante. Contudo, sem dúvida sob a influência das tendência atuais da psiquiatria, vimos retornar para o vocabulário psicanalítico o termo “dissociação” que tende a substituir o termo “recalcamento”. Talvez isso também decorra da influência retrospectiva das concepções de Pierre Janet. 

De qualquer forma, quanto aos casos-limite, não só a clivagem parece ocupar muito espaço na clínica e nas expressões transferenciais, como pode-se constatar o aparecimento de formas defensivas extremas que ganham ares de alucinações negativas do pensamento em suas relações com o desejo (Green), que parecem indicar não estarmos apenas diante de manifestações do recalcamento, mas sim de um mecanismo de negativação que incide sobre a percepção do pensamento pelas palavras. 

Compreende-se, então, que não são apenas fenômenos de desejo que estão sujeitos ao apagamento, mas o próprio trabalho do pensamento no surgimento do diferentes tipos de representações submetidas ao ataque aos vínculos (Bion, 1967a), que incide sobre seus diversos aspectos (verbalização, fantasia, movimento pulsional, etc.). Durante muito tempo esse trabalho de solapa- mento impedirá qualquer insight, isto é, qualquer tomada de consciência de uma situação de conjunto da problemática conflitiva. Apenas aspectos pontuais adquiridos em sessão escapam momentaneamente à negativação, e estão destinados a ser apagados depois da sessão. 

Percebe-se que aqui se estabelece um jogo sutil entre os diferentes tipos de defesas, evocativo da comparação com o trabalho de Sísifo, e que exige uma paciência infinita por parte do analista, que está sempre sendo solicitado a pôr em funcionamento atitudes contratransferenciais de rejeição simétrica do paciente.

 

O inconsciente e o id

Desde as origens da psicanálise, e sobretudo após o abandono da neurótica, o papel das fantasias inconscientes foi objeto de uma teorização rica que destacava particularmente o papel da bissexualidade. Mas a conversão permitia ao sujeito operar um curto-circuito que bloqueava a emergência da fantasmatização, impedindo o aparecimento da angústia e reforçando a defesa por meio da “bela indiferença”, interpretada por Freud como um total sucesso do recalcamento. No entanto, embora as fantasias inconscientes não tenham deixado de ocupar um lugar importante na psicopatologia da histeria, a evolução do pensamento psicanalítico tendeu, sobretudo por influência das idéias de Melanie Klein, a direcionar a interpretação dessas fantasias no sentido da pré-genitalidade sublinhando o papel das formas arcaicas em que se observam angústias de aniquilamento. 

O histérico sempre foi acusado de enganações, mentiras e falsificações teatrais. É uma questão que só se aclara por referência às medidas defensivas que traduzem uma forma intensamente sustentada de não- reconhecimento. Nos casos-limite estamos diante de um dilema no qual faltam as estruturas intermediárias que possibilitariam uma organização do conflito. Ou seja, assistiríamos a uma confrontação brutal entre expressões do id — e não mais apenas do inconsciente — compostas de movimentos pulsionais que provocam descargas maciças, seja no corpo, seja no ato, uma espécie de atalhos regressivos diante dos quais têm de ser colocadas em ação defesas drásticas sustentadas por regressões maciças com o mesmo objetivo. 

A menos que seja o contrário e que devamos considerar as defesas drásticas responsáveis pelo adentramento das moções pulsionais, a título de reação. É quando vemos aparecer as condutas aditivas alimentares, toxicomaníacas ou medicamentosas, as fugas prolongadas e repetitivas no sono, os comportamentos suicidas mais ou menos disfarçados, as regressões somáticas, as passagens ao ato como expressão da cólera, da raiva e da impotência, etc. É fácil adivinhar que todas estas últimas manifestações estão, com efeito, carregadas de uma destrutividade que ora visa o objeto, ora se volta contra o ego. 

É nesses períodos críticos que a atitude do analista é fundamental. A sobrevivência de sua capacidade de pensamento, sua resistência às destruições de que o processo analítico é alvo e a ausência de rejeição ao paciente por ocasião de todas essas colocações à prova da contra transferência, acabam vencendo o desejo de destruir o objeto ou de se destruir, mas podem ter o inconveniente de criar novas fixações ao analista, não passíveis de transferência para outros objetos.

 

O corpo

A relação do histérico com seu corpo, por mediação sexual a bissexual, foi o que primeiro emergiu nas descrições clínicas que remontam à Antigüidade. A conversão continua sendo um problema. É verdade que sua freqüência diminuiu muito em comparação com a sua “cultura”, que Charcot foi acusado de favorecer. É engraçado que hoje se volte, fora da psicanálise, à tese oposta de Babinski, que só via nela um efeito de sugestão. 

Os estudos recentes sobre a conversão (Desrouesné, 1994) mostram que ela não desapareceu, afetando ainda principalmente as mulheres e aparecendo nos homens em condições particulares, como por exemplo nas prisões ou no exército. Tende-se atualmente a separar conversão e histeria, sendo que cada uma pode aparecer isoladamente. A esse respeito, contudo, é preciso tecer algumas considerações à medida que a conversão poderia, de fato, absorver as manifestações psíquicas concomitantes da histeria. É a respeito disso que se tende a falar de fenômenos dissociativos. 

Esse novo hábito é bastante curioso, não tanto por ressuscitar a teorização de Janet, mas porque prevalece o hábito de vincular dissociação e esquizofrenia. Seja como for, o tratamento da conversão (S. Lepastier, 1994) retoma as atitudes, outrora preconizadas, baseadas na sugestão. Com efeito, não se pode esperar que uma interpretação expressa de maneira neutra seja suficiente para fazer desaparecer o sintoma, pois poderíamos dizer que à atitude destituída de qualquer emoção por parte do analista contrapõe-se a bela indiferença do paciente, que não se deixa afetar pelas proposições interpretativas do analista. 

Certos sintomas da conversão (do tipo dor na face representando ahumilhação consecutiva a uma bofetada imaginária) podem ser considerados uma desmetaforização simbólica. Seja como for, tendo a conversão perdido seu papel de protagonista, e isso ainda com Freud em vida (que quase não a menciona em Inibição, sintoma e angíistia, 1926), a relação do histérico com seu corpo está longe de estar definidamente remida pela ausência de recurso a esse mecanismo. 

O corpo do histérico, embora aparentemente seja um corpo menos super-excitado sexualmente, continua sendo um corpo doloroso, sempre submetido a turbulências que se nutrem da vida emocional e da sexualidade. Esse corpo é freqüentemente maltratado por todos os distúrbios dos apetites: os relacionados ao alimento, ao álcool, aos medicamentos ou à droga, mais fáceis de exibir do que aqueles da esfera sexual. Esse corpo doloroso tem de sofrer para existir e para ser sentido como corpo que sobreviveu ao trabalho de negativação que gostaria de suprimir suas demandas e reivindicações de prazer. Resta uma questão litigiosa. 

A da relação com a psicossomática. Classicamente, as concepções de Pierre Marty (1990) opõem-se a essa conjunção, embora admitam a existência de casos nas fronteiras da psicossomática, como os pacientes alérgicos. Na verdade, na minha experiência pude constatar a coexistência de ambos. Nesse caso, contudo, a estrutura histérica aparece marcada de modo particular. Predominam a importância dos fenômenos de idealização, de clivagem, de recusa, o desejo de proteger o objeto considerado frágil demais para suportar as projeções do sujeito e sobretudo as expressões de agressividade em relação a ele e uma forte sensibilidade aos sofrimentos morais e psíquicos do outros, que leva a identificações extremas. A questão das relações entre histeria e psicossomática exige novos estudos.

 

Os afetos

Desde as origens da psicanálise, o afeto sempre ocupou um lugar de primeiro plano na histeria. Primeiro, com a concepção do afeto coartado, em seguida, com a importância atribuída às relações entre prazer e desprazer: o exemplo do nojo histérico como prova manifesta do recalcamento (desprazer para um sistema: consciente; prazer para um outro sistema: inconsciente) é mostra disso. 

Posteriormente, graças ao melhor conhecimento das formas histéricas que não pareciam poder ser relacionadas com fixações de ordem genital ou fálica, e em decorrência de umateorização que lançou luz sobre os traços constitutivos das estruturas pré-genitais (Bouvet, 1967), a ênfase viria a ser colocada sobre seus aspectos tempestuosos, cataclísmicos e, em último caso, desorganizadores. Tudo isso se aplica, particularmente, ao caso da angústia. 

Quanto menos a histeria se relaciona com formas de fixação genitais, menos a angústia prevalece sob sua forma de sinal de alarme, e mais adota o aspecto da chamada angústia automática. Quando estamos às voltas com casos-limite, a difusão da angústia e sua intensidade conduzem a condições gravemente desestruturantes. É a esses pacientes que se aplicam as noções de angústias catastróficas (Bion, 1970, Brenman, 1985) ou de tormentos martirizantes (Winnicott, 1965). 

Em todos esses casos é possível identificar com clareza a importância dos afetos de inveja, raiva e impotência que indicam a dupla implicação da destrutividade e do narcisismo. E, caso exista uma inveja de pênis nas pacientes mulheres dessa categoria, tal fantasia concerne, sobretudo, ao desejo de possuir um órgão agressivo, sendo o pênis considerado, em primeiro lugar, sob esse ângulo. Tendo se tornado alvo, por retorno sobre a própria pessoa, o ego se vê ameaçado de desmoronamento. Embora fenômenos de despersonalizaçãoe sentimentos de despedaçamento ou de fragmentação possam estar presentes, é raro que esses traços pertencentes à fase esquizoparanóide persistam de maneira definitiva. 

Em contrapartida, a queda na depressão, com prevalência dos afetos de vazio, de inércia, de futilidade (Winnicott, 1965), geralmente se instala de modo prolongado, até mesmo crônico. Entre a histeria e os casos-limite, a depressão é uma ameaça permanente, de itensidade variável, que pode ir da simples depressão neurótica com acusações diretamente formuladas ao objeto, até formas mais graves, de estruturas mais narcísica, mais próximas da melancolia, em que predominam a auto- acusação e as idéias de indignidade. 

Em todo caso, isso ressalta a importância fundamental dos lutos não feitos (J. Cournut, 1991), ao mesmo tempo em que a análise da transferência revela a persistência tenaz de fixações aos objetos incestuosos, a impossibilidade de se separar deles e fazer seu luto. Nas formas mais edipianas, é também a questão da escolha objetal definitiva que ocupa o primeiro plano, sem que o sujeito possa renunciar às suas fixações em um dos pais, para escolher o outro. Como se tal escolha significasse a impossibilidade de conservar o outro. 

O que ele deseja é poder possuir ambos, ao mesmo tempo, englobando-os sob a forma de um condensado do pai e da mãe. A cena primitiva ou bem é negada, ou fantasiada sob uma forma particularmente traumática, com os pais unidos num coito interminável que engendra um sentimento de raiva e de impotência, impotência que se exprime na impossibilidade de encontrar seu lugar nessa fantasia, identificando-se a um dos dois parceiros, e impotência também de conseguir separá-los. 

Mas é freqüente que nos casos-limite em que prevalece a problemática depressiva seja o contrário que chame a atenção, ou seja, que o sujeito sofre da decepção dos dois objetos parentais. Esses casos são particularmente graves, pois o ódio não é contrabalançado por um amor que poderia conservar o gosto de viver, e o narcisismo do sujeito é fortemente afetado por ausência de apoios identificatórios.

 

As representações

Nos primeiros estudos sobre a histeria, a descoberta das representações, particularmente as de coisa ou de objeto, eram a via de acesso ao inconsciente. O reconhecimento das fantasias ligadas à bissexualidade marcou as etapas iniciais das teorizações de Freud. Posteriormente, as relações entre representações de palavra e representações de coisa ampliaram essa investigação. Com a evolução dos conhecimentos, a fragilidade dos processos secundários (por comparação com a neurose obsessiva) e a importância dos afetos e das fantasias a eles ligadas deslocaram a ênfase para os processos primários. 

Contudo, na esteira de Lacan (1966), alguns autores quiseram revalorizar o lugar da linguagem (Rosolato, 1988). Com efeito, poder-se-ia considerar que o que está em questão aqui é a nomeação dos afetos, já que a histeria se refugia bastante, em sua expressão pessoal, no indizível, no afetivo, ou até no incompreensível e no irracional, sendo que todas essas preferências tendem a desvalorizar um esclarecimento por meio das representações, sempre acusadas de serem abstratas demais. 

Tudo acontece como se o que é da ordem do conhecimento intelectual ferisse o histérico, por estar indissociavelmente ligado ao que é duro, frio, seco, isto é, ao que se afasta da compreensão empática, fusional, intuitiva, carnal em suma, em que as palavras, no limite, não precisam ser empregadas. Geralmente o analisando se priva de comunicar seus pensamentos ao analista, acreditando que este deveria compreender sem a ajuda da palavra. Essa comunicação está, é claro, ligada à importância das trocas pré-verbais e às relações especulares entre mãe e filho. 

Em se tratando dos casos-limite, constata-se algo a mais: uma verdadeira carência representativa; mais exatamente, é freqüente que as representações sejam absorvidas por movimentos pulsionais diretos, em curto-circuito, resultando em expulsões pelo ato ou em descargas no soma. Pode-se então sublinhar a pobreza das mediações psíquicas e a ausência de estruturas intermediárias, o que dá um aspecto bruto e cru ao material ou torna este último difícil de compreender por causa do fraco apoio sobre formas verbais. Pode-se, certamente, suspeitar da existência de fixações em fases pré- genitais da libido. Mas, às vezes, esse modo de comunicação empática é, embora ele o reivindique, completamente temido pelo analisando, que o vive como uma forma disfarçada de adivinhação do pensamento por um objeto onipotente contra oqual deve se distender para não cair totalmente em seu poder.

 

O ego, o narcisismo, a identificação

Nas neuroses histéricas clássicas, em princípio não se assiste a regressões do ego, mas somente a um retorno a fixações libidianas anteriores. É claro que quando a ênfase se deslocou para as histerias pré-genitais, esses pontos de fixação passaram a colocar mais em questão a integridade do ego. Este, de fato, se enfraquece por recorrer a defesas mais arcaicas do que o recalcamento (clivagem, recusa, identificação projetiva). Nos casos-limite, a fragilidade do ego é perceptível desde o primeiro instante. É o que Freud já anunciava em “Análise terminável e interminável” (1937). 

O caso-limite também testemunha de modo maciço as carências objetais que possa ter sofrido. É sobre esse ponto que os trabalhos de Winnicott constituíram uma contribuição decisiva. Tem-se o hábito de distinguir entre casos-limite e personalidades narcísicas. Por mais justificada que essa distinção seja, a falha do narcisismo está regularmente presente nos casos-limite. Sua sensibilidade para aferida narcísica, a importância já sublinhada das problemáticas de luto, permitem constatá- lo. Esses pacientes parecem magoados em seu ser. A análise precisará de muito tempo para restabelecer uma auto-estima, ademais insuficiente por ter sofrido os assaltos da culpa.

Neste capítulo gostaríamos sobretudo de enfatizar o papel das identificações. A função das identificações é bastante conhecida desde as primeiras investigações psicanalíticas sobre a histeria. Esse estudo enriqueceu-se ainda mais com a acumulação da experiência dos psicanalistas. Descreveram-se as identificações superficiais, numerosas, variadas, contraditórias, cambiantes (a tão conhecida labilidade de humor do histérico) que contrastam com a fragilidade das identificações profundas. É a defesa “camaleônica” tão freqüentemente observada no histérico. A identificação histérica superficial funciona como um “detector de aparência”. 

Nisso, é o contrário de uma identificação introjetiva que estaria relacionada com objetos internos. Trata-se, na verdade, de uma defesa em vários sentidos. Por um lado, a identificação permite uma familiarização assimiladora, na verdade distante em relação ao objeto; ao se colocar em sintonia, apaga-se a alteridade e é possível prever os movimentos do outro. Por outro lado, ao se moldar conforme o modelo apresentado pelo objeto, espera-se ser amado por ele. É preciso esconder a diferença, os desacordos com ele e não mostrar o que se é de verdade, por medo de ser rejeitado. Em geral, essa tática inconsciente é de curta duração, e logo na primeira ocasião a dramatização voltará à superfície sob a forma de um conflito agudo que surge a propósito de um motivo banal. 

A tentativa de dominar a superfície por impossibilidade de reconhecer a profundidade desvelará sua função defensiva a propósito da erotização. Conhecem- se decor as manobras da sedução histérica que em geral terminam num recuo no último minuto. Ela contrasta com a erotização profunda que continua perigosa, responsável por muita frigidez e muita impotência. Mais adiante ainda se desvelará a dificuldade de amar, pois, como dissemos, é o vínculo sexualidade-amor que é perigoso à medida que é prova de um compromisso total — “corpo e alma” —, aleatório demais para o histérico que projeta sobre o objeto a mesma inconstância, talvez fosse o caso de dizer inconsistência, que o habita. 

Como Winnicott (1965) já notara, para esses pacientes o analista não é “como a mãe”, mas ele é a mãe. Por outro lado, um fator de perturbação na compreensão do material pelo analista está ligado ao fenômeno de confusão identificatória. Com isso quero dizer que estamos bem além dos fenômenos de ressonância ou de resposta em espelho entre o ego e seus objetos. O ego do paciente não sabe mais a qual pessoa se remete. O paciente confessa abertamente que em certas circunstâncias fica perdido e parece ignorar se ele é ele mesmo ou sua mãe, ele mesmo ou outra figura parental (um tio, uma tia). 

Mais paradoxalmente ainda, em certos momentos críticos, quando tem filhos, tem a impressão de que as identidades entre o genitor e o filho foram trocadas. Um pai adulto será tomado por uma vontade brutal e incoercível de ter o pênis de seu filhinho de 3 anos, como se fosse maior do que o seu, ou então constatará no filho a existência de pulsões incestuosas dirigidas para a mãe que outrora foram suas, e ficará aterrorizado com a idéia de uma realização possível numa completa troca de papéis. A meu ver, essas manifestações, que podem ser interpretadas em termos de identificação projetiva, seriam mais bem caracterizadas como confusão identificatória, com troca e cruzamento das identidades entre os objetos totais.

 

O objeto 

Poder-se-ia centrar toda a tarefa de diferenciação entre histeria e casos-limite a partir da relação de objeto. Mas, por falta de tempo, temos de nos limitar a breves observações. Mais uma vez opõem-se as formas mais benignas da histeria e aquelas cuja organização está relacionada com fixações fálicas bem circunscritas, localizadas no seio de um complexo de castração em que entram em jogo a bissexualidade e as relações entre pulsões eróticas e agressivas no contexto de intrincações suscetíveis de se desfazer e de se refazer. É verdade que essa concepção clássica da histeria acabou sendo considerada uma visão um pouco ideal da afecção. 

Com o passar do tempo, o caráter exclusivo da fixação fálica e genital foi contestado, exigindo reinterpretações. Seja como for, a sensibilidade à depressão foi motivo de uma reavaliação do papel do objeto. Embora nas formas clássicas da histeria, a simbolização esteja muito presente, nas formas de histeria pré-genital suas manifestações são bem menos patentes, ou mais indiferenciadas. Mais precisamente, a simbolização tem de ser inferida pelo pensamento, sem que possamos nos apoiar em formas reconhecíveis dela. Nos casos- limite, podemos suspeitar de uma verdadeira desdiferenciação do processo de simbolização. O que está em questão aqui é a função de substituição. Nas formas clássicas de histeria, ela se refere ao objeto (fantasmático) da pulsão, cuja característica é ser o elemento mais contingente da montagem pulsional, ou seja, o mais deslocável e portanto, o mais substituível. 

Essa concepção, que concebe a neurose como negativo da perversão, atesta as transformações simbólicas da fantasia, como as perversões mais simples, e sobretudo a perversidade polimorfa da criança, permitem observar. Contudo, quanto mais nos dirigimos para os casos-limite, mais o objeto que encontramos nessa direção é, ao contrário, um objeto não substituível, indispensável, único, necessário para a sobrevivência do indivíduo (Green, 1995a). 

Donde, o lugar ocupado nessas estruturas pelas angústias de separação e pelas angústias de intrusão. Percebe-se que o conflito se deslocou das relações entre as pulsões e o superego para as relações entre o ego e o objeto. Tudo isso tem, evidentemente, uma conseqüência direta sobre a transferência e a interpretabilidade. É o que permite supor o papel verdadeiramente traumático das separações corriqueiras da análise (fins de semana, férias curtas e longas). 

A meu ver, é essencial dar ao analisando a possibilidade de permanecer em contato com o analista ou prever substitutos possíveis por ocasião dessas ausências. Winnicott às vezes levava seus pacientes para o hospital para dar- lhes um lugar onde pudessem esperar por sua volta. Parece-me importante sublinhar que tal estado não está apenas ligado ao fato concreto da separação, mas à impossibilidade do analisando de ter uma representação, seja ela qual for, do analista durante sua ausência. Evidentemente não é recomendável fechar os olhos para as possíveis manipulações do paciente, nocivas para a contratransferência, mas creio ser indispensável fornecer uma possibilidade de junção com o objeto (sob a forma, por exemplo, de um número de telefone em que o analista possa ser contatado). Na minha experiência, graças a esse meio, sempre consegui evitar regressões importantes durante as separações bastante longas, no verão por exemplo.

 

O superego

É conhecida a controvérsia que opõe freudianos e kleinianos em torno desse ponto, qual seja, a irredutibilidade de Freud quando à origem pós-edipiana do superego, ao passo que Melanie Klein e seus discípulos sempre antedataram o nascimento dessa instância, fazendo-a remontar a idades mais precoces. A questão gira em torno do sentimento de culpa, sobretudo inconsciente. Na neurose histérica, a culpa está ligada à apreensão mais ou menos obscura dos desejos interditos, eróticos e agressivos, à necessidade de lutar contra eles e mantê-los tão recalcados quanto possível. Mas é conhecida a virada decisiva nas concepções de Freud quando ele foi levado a descobrir a força, até mesmo o domínio do sentimento inconsciente de culpa que, aliás, preferiu chamar de necessidade de autopunição. Toda a questão do masoquismo pode ser evocada aqui. 

O certo é que Freud chegou à conclusão, em “Análise terminável e interminável” (1937), que existia uma destrutividade flutuante, não ligada pelo superego, e portanto independente do sentimento de culpa. Essa questão não pode ser resolvida nos limites desta exposição. O certo é que nesse caso estamos confrontados com os resultados mais temíveis da reação terapêutica negativa — muitas vezes constatada nos casos-limite — ligada a uma compulsão à repetição mortífera. O que quer que se pense dessa destrutividade livre, é provável que o superego em questão não possa ser suficientemente esclarecido pela luta empreendida contra desejos proibidos. 

Existe, no mínimo, uma erotização do sofrimento, vinculável ao masoquismo, mas podemos ir além e, como Winnicott mostrou, evidenciar o papel de uma colocação à prova do objeto que tem necessariamente de sofrer ataques assassinos reiterados que, quando fracassam em seus objetivos, permitem a saída dos círculos viciosos. O analista enquanto objeto deve sobreviver a essas tentativas reiteradas de aniquilamento (Winnicott, 1971). É só depois de comprovado que o analista objeto não sucumbiu a esses ataques repetidos, ou seja, que a análise prossegue, que um começo de reparação se torna possível, e que um vínculo objetal menos precário pode ser estabelecido. 

Mas outras formas podem se manifestar nessa ocasião. Constata-se, com efeito, a existência de relações objetais muito difíceis de desfazer, fundadas em relações baseadas na perseguição, provenientes em parte dos outros, e amplamente alimentadas por uma auto-agressão desesperadora que sabota qualquer realização de prazer ou qualquer ganho narcísico. Na transferência, quando a análise da trânsfereneia é proposta, o analisando sempre responde a ela seja por uma acusação quanto ao modo como o analista se comportou, seja referindo-se a circunstâncias externas de que o sujeito teria sido vítima.

A esse pólo persecutório corresponde um pólo simétrico de idealização. Esta recai alternadamente sobre o analista, oscilando com a relação persecutória para com ele, ou sobre qualquer outro objeto de transferência lateral. Mas o mais grave é quando essa idealização se torna idealização de si mesmo, colocando em funcionamento as mais vigorosas negações, e tendendo a recuar a parte de si que pode ser vinculada ao desejo, particularmente sexual, e às pulsões. O mais difícil é a tomada de consciência do prazer de sofrer desencadeado pelo masoquismo.

Enfim, outra possibilidade, a ameaça de suicídio, é motivo de uma preocupação constante por parte do analista. Embora se conheça ocaráter superficial, até mesmo veleidoso das tentativas de suicídio no histérico, em que o desejo de morrer é na verdade bem menos intenso do que o de sair magicamente de uma situação dolorosa afetivamente intolerável, o suicídio nos casos-limite é, em contrapartida, bem mais perigoso. Nesses casos, embora os procedimentos continuem a se parecer com aqueles aos quais o histérico recorre (suicídio medicamentoso), o resultado é muitas vezes dramático, as tentativas podendo resultar em comas prolongados. Também é difícil discernir entre a tentativa de saída de uma situação que parece totalmente insolúvel com desejo prevalente de dormir, e a pulsão incoercível de querer morrer. 

De qualquer maneira, nesse caso a angústia é extrema, e em face do nível do traumatismo o ego parece incapaz do menor trabalho psíquico elaborativo. Mais uma vez, o todo deve ser avaliado em relação à destrutividade orientada para objeto ou para o ego. De qualquer maneira, quando ocorrem tais tentativas durante uma análise, é muito importante que o objeto se mostre presente. 

Contrapõem-se aqui uma neutralidade sem nuanças, aceitável, a rigor, ante uma problemática histérica pura, e uma neutralidade de fundo, que não exclui a presença e o testemunho de confiabilidade de um objeto que não responde por meio da represália ou da indiferença. Todos os analistas que tratam de casos-limite sabem que têm constantemente de avaliar sua posição contratransferencial para saber, como se costuma dizer, até onde se pode avançar.

Discussão geral 

Será possível retomar os diversos capítulos que acabamos de considerar para compor uma visão de conjunto? Se esse ponto de vista for possível, certamente só o será interrogando os dados da transferência e da contra transferência. Esse esforço obriga primeiro a unificar impressões que são particularmente avessas ao agrupamento dado o caráter duplamente proteiforme da clínica da histeria e da dos estados-limite. Por isso, falar da transferência no singular é pura conjetura. 

Contudo, somos obrigados a fazer generalizações para que uma concepção possa surgir. Em última instância, colocamos num pólo a ênfase na natureza erótica das fixações da histeria, que opusemos à prevalência destrutiva do que se observa nos casos-limite. Da mesma maneira, implicitamente opusemos um ego relativamente organizado na histeria à sua forma gravemente prejudicada nos casos-limite. 

Além disso, sublinhamos a importância da bissexualidade no histérico, enquanto, ao contrário, o papel desta está mais clivado nos casos-limite, em que a problemática narcísica tem um peso mais aparente. Vimos, ademais, que era possível defender a idéia de um continuam a propósito da problemática do luto e seu corolário, a depressão, entre o histérico numa extremidade e o caso-limite na outra. Contudo, as coisas poderiam ser vistas de uma ótica que não esteja orientada apenas do mais superficial para o mais profundo, ou do mais leve para o mais grave. 

O uso que demos à noção de quiasma nos levaria antes a pensar num movimento oscilatório. Com efeito, tudo acontece como se o histérico mostrasse uma tendência regressiva para a repetição, mas em geral lábil, aquela que se observa no percurso que vai da histeria fálica e genital até a chamada histeria oral, ao passo que do outro lado, os casos-limite, embora situados na fronteira de diversas entidades mais profundamente regressivas, quer se trate das psicoses, das depressões ou das estruturas narcísicas e perversas, têm pelo contrário tendência a se agarrar a um pólo objetal depois de tentativas regressivas marcantes, das quais a histeria é uma saída entre outras.

Ao consideramos a relação entre a forma falo genital da histeria e aquela qualificada de histeria oral, a diferença entre ambas poderia consistir na existência de fixações anais importantes que permitiram a passagem para a forma mais tardia ou formam um batente contra o deslizamento para a oralidade. Essas fixações anais são responsáveis por aspectos caracteriais freqüentemente associados aos aspectos tantas vezes insuportáveis do comportamento do histérico. 

Costumam ser provocações para por à prova o amor incondicional do objeto jogando sempre com a possibilidade de uma rejeição cuja ocorrência viria confirmar as angústias que desembocaram na passagem ao ato destinada a reforçar, pela repetição, a convicção do caráter mau, insatisfatório e insuficiente do objeto, como que para verificar a realidade das projeções sobre os pais. Nos casos-limite, o comportamento que acabamos de descrever no histérico, e que é bem menos inteligível na transferência, adota formas particularmente caóticas e geralmente incompreensíveis. 

O analista fica muitas vezes desesperado, tomado de um sentimento de culpa em relação à sua insuficiência e presa da recriminação interior de ser um mau analista, tanto mais que ele acaba repetindo os traumatismos infligidos pela má mãe. É justamente este o objetivo da operação que o paciente busca. Essa situação, que levanta importantes dificuldades contra transferenciais, tornou-se bem mais tolerável para o analista depois que Winnicott nos mostrou a existência do ódio na contra transferência e esclareceu que nesses casos o analista é utilizado por suas carências. O enquadre analítico, em vez de ser meio facilitador, torna-se, ao contrário, particularmente inadequado, inadaptado às necessidades do paciente, favorecendo a emergência de uma imagem de um analista mãe, incompetente, brutal, para não dizer perverso. 

Chegam a instalar-se situações em que a contra transferência responde em espelho à transferência. Para cada um dos parceiros, trata-se de saber qual deles vai conseguir enlouquecer o outro primeiro. Daí a importância das condutas de dominação ou de antecipação dos perigos recorrendo a manobras para manter o controle do objeto. A erotização é colocada em funcionamento sobretudo na histeria, sendo menos evidente nos casos-limite. 

Por outro lado, os casos-limite colocam em ato situação regressivas às vezes atuadas na sessão, procurando simbolizar a relação do bebê com um seio ideal (utilização de almofadas para representar o peito da mãe, roupas enroladas para o mesmo uso, encolhimento dos joelhos sobre o corpo no divã). Ao contrário, às vezes é a perseguição que predomina (lançamento de almofadas do outro lado da sala, e às vezes crises motoras no limite do arco de círculo). Essas manifestações têm valor de actings e, pela descarga que as acompanha, constituem uma “realização” em relação ao universo interno do paciente. Todas essas peripécias sempre fazem pensar na impossibilidade de conseguir um dia entrar em contato com um objeto bom. 

Este é vivido como inacessível, indisponível, ou ocupado com o gozo de alguma outra pessoa. A identificação com um outro objeto em posição mais gratificante, a identificação histérica, jamais é muito eficaz nos casos-limite. Nestes casos, assiste-se antes a uma relação de vigilância mútua em que o prisioneiro e o carcereiro são inseparáveis, cada um com o poder de reter o outro imobilizando-o. O essencial, no fim das contas, é que a situação evolui pouco ou nada.

Quanto ao problema da fixação, a solução mais tentadora para resolver as contradições é fazer a fixação recuar situando-a o mais cedo possível nos primórdios da vida. É assim que procedem as concepções de histeria oral ou aquelas que se referem à triangulação precoce e ao jogo de vai-e-vem entre esta última e a triangulação edipiana. Também nesse caso, quando o pólo maníaco-depressivo passa para o primeiro plano pode-se supor que os mecanismos neuróticos foram superados e que a cena desloca-se agora para o teatro das relações entre o ego e o objeto, colocando em funcionamento dramas que comportam fantasias de devoração recíproca. Já vimos o papel conjunto das angústias de castração-separação e de penetração-intrusão. O atentado à esfera narcísica provoca uma intensificação defensiva, a culpa acopla-se à vergonha e o recalcamento das representações é completado pela recusa das percepções.

Antes de concluir, temos de precisar o papel do pai. Este, como se sabe, adota figuras contrastantes: sedutor, incestuoso, todo-poderoso ou, ao contrário, desvalorizado, insuficiente e totalmente dominado pela mãe. Contudo, a fixação ao pênis do pai é de interpretação ambígua. Pois, por um lado, é o que o objeto tem para possuir a mãe e ligá-la a ele, mas, por outro, a ambivalência projetada, ou direta, do objeto materno sobre o pai transforma essa fixação libidinal em desejo de castração da imago paterna, geralmente de caráter defensivo. 

Esse objetivo é racionalizado para ocupar o lugar de um objeto escolhido pela mãe, com acriança desejando desempenhar ela mesma esse papel, poder expulsar o pai e substituí-lo a fim de libertar a mãe dominada, inibida, martirizada, escravizada na cena primitiva. Trata-se de uma posição menos conflituosa no menino, embora entre em oposição com seus desejos homossexuais e sua identificação com o pai. Na menina, leva a um impasse à medida que nenhuma identificação edipiana pode emergir dela. Em todo caso, na fantasia, a mãe não conseguiria desfrutar da sexualidade com opai, mantendo com ele no máximo uma relação sadomasoquista.

Desde que a histeria existe, ela sempre suscitou o problema de sua relação com a verdade e é conhecida a má reputação atribuída aos histéricos, suspeitos de querer deliberadamente enganar os médicos. Quando o histérico é confrontado com suas contradições, com sua inconstância, suas dissimulações, ele   se   defende conscientemente invocando a existência de “verdades sucessivas” que se anulam uma à outra, cada uma das quais só tendo valor no momento em que foi declarada. Tal variabilidade demonstra a superficialidade da relação com o objeto e o lugar efêmero atribuído aos investimentos pulsionais, que podem ser substituídos por outros, de natureza diferente, de uma maneira que poderia parecer incompatível para um terceiro. 

Embora Freud nos tenha permitido pensar as coisas de outra maneira, referindo todas essas “mentiras” ao inconsciente, hoje, quando as reticências em relação à psicanálise se intensificam, retoma-se de novo a hipótese da fraude que os histéricos armariam contra psicanalistas crédulos demais, ou psicanalistas que perpetuariam a mentira tornando-se eles mesmos os apregoadores de suas falsificações. Quanto aos casos- limite, a verdade também sofre uma deformação importante. Mas neste último caso, a mentira não é perpetrada com o objetivo de extrair um benefício primário ou secundário. A mentira é a conseqüência indireta de uma relação falseada, mais diretamente falseada, com o real e com as projeções do sujeito, que já não permitem ter uma percepção dele lado a lado com o desenvolvimento das fantasias.

Quer se trate de uma ou outra dessas duas possibilidades, a questão que se coloca é saber se a verdade pode ser utilizada como um conceito psicanalítico. Existe em Freud uma oposição entre realidade psíquica-realidade material e, ao lado desta, uma outra, mais tardia, exposta em “Moisés e a religião monoteísta”, entre verdade histórica e verdade material. Isso parece sugerir que poderia haver uma ligação entre os conceitos de realidade psíquica e de verdade histórica. A verdade histórica sofreu vicissitudes ao longo do desenvolvimento, pois está ligada a percepções e a fantasias inicialmente tidas por verdadeiras, recalcadas num segundo tempo e que reaparecem à superfície mais tarde. É a análise do que constitui essa verdade histórica o objetivo do tratamento. 

Ampliando a concepção de Freud, Bion (1970) propôs uma nova versão do conceito de verdade. Considerando que a verdade é tão necessária para a psique quanto o ar para o organismo vivo, a concepção de Bion baseia-se no dilema fundamental: elaborar a frustração ou evacuá-la. Essa evacuação para fora da psique pode ser comparada, em certo sentido, às formas radicais do trabalho do negativo. Se o recalcamento pode ser corrigido graças ao retorno do recalcado, o mesmo pode não ocorrer para certas clivagens profundas e menos ainda para certos efeitos da forclusão. Enfrentamos dificuldades ainda maiores quando lidamos com experiências precoces que não foram inscritas na psique sob a forma de lembranças porque ocorreram em períodos anteriores à aquisição da linguagem. 

Muitas vezes será apenas graças à compulsão à repetição com força de actings, ou até de descargas somáticas, que poderemos construir a verdade que nos falta. O mais difícil então será compartilhá-la com o analisando, tomando o cuidado de evitar dar a ele a sensação de uma doutrinação para que ele possa alcançar uma autêntica liberdade pessoal. Aqui, o pior nem sempre é certo, e não está proibido pensar que vez por outra certos-limite atingem mais facilmente esse resultado do que muitos histéricos. 

Talvez porque as brechas que foram abertas em seu ego os privaram do recurso das racionalizações mais petrificantes. Seja como for, para atingir o porto, o analista terá necessidade de uma bela firmeza de ânimo. É graças a ela que pode ser transmitido o saber daqueles que, juntos, não tenham fugido das provações da análise.

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Traduçäo de Claudia Berliner

Revisäo da Traduçäo de Sandra Maria Gonçalves

André Green 9, av. de l’Observatoire 75006 Paris, France

O Cedido para publicação na Revista Brasileira de Psicanálise

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