A histeria ainda denuncia: ciência e corpo na psiquiatria contemporânea
por Luisa Fromer
A histeria desapareceu. Ao menos, essa é a impressão que se poderia ter ao percorrer as classificações psiquiátricas contemporâneas. O termo que ocupou posição central na constituição da neurologia, da psiquiatria e da própria psicanálise encontra-se hoje praticamente ausente dos manuais diagnósticos. Aquilo que outrora se reunia sob seu nome foi progressivamente distribuído entre diferentes categorias: transtornos dissociativos, transtornos somatoformes, transtorno de conversão, transtorno de sintomas somáticos e, mais recentemente, transtorno do sintoma neurológico funcional.
Os fenômenos clínicos que historicamente colocaram a medicina diante da histeria, contudo, não desapareceram. Pacientes continuam chegando aos serviços médicos com paralisias, tremores, crises não epilépticas, dores e outras manifestações corporais capazes de produzir sofrimento e comprometimento funcional importantes sem encontrar correspondência suficiente nas investigações disponíveis. A continuidade desses fenômenos permite deslocar a pergunta sobre o desaparecimento da histeria: mais do que indagar para onde ela foi, interessa perguntar o que, apesar das transformações nosográficas, ela continua a interrogar.
As classificações não constituem representações neutras e acabadas do mundo; implicam recortes e escolhas produzidos em contextos epistemológicos determinados (Banzato & Pereira, 2014). A trajetória da histeria constitui, nesse sentido, um observatório privilegiado das transformações ocorridas na psiquiatria ao longo do último século. A publicação do DSM-III, em 1980, marca uma importante inflexão em direção a uma racionalidade diagnóstica fundada na descrição operacional dos sintomas e na busca de critérios classificatórios apresentados como ateóricos (Bezerra Jr., 2011; Dunker & Kyrillos Neto, 2011; Morais, 2017; Pereira, 2000).
Sob a proposta de construir uma linguagem comum e empiricamente verificável, esse movimento implicou o progressivo afastamento de modelos etiológicos e psicodinâmicos. O declarado ateoricismo do DSM-III, entretanto, não significou ausência de pressupostos. Bezerra Jr. (2011) chama atenção para uma orientação crescentemente biologizante, enquanto Dunker e Kyrillos Neto (2011) situam essas transformações no contexto da aproximação entre pesquisadores experimentais e uma psiquiatria de orientação fisicalista.
É nesse horizonte que a fragmentação da histeria interessa: não como evidência de um suposto equívoco da psiquiatria contemporânea, tampouco como argumento para a restauração de uma antiga categoria diagnóstica, mas como ocasião para examinar os critérios pelos quais determinados fenômenos adquirem inteligibilidade e legitimidade como objetos de conhecimento.
Mas o que significa, afinal, dizer que uma maneira de nomear o sofrimento se transforma? Uma classificação diagnóstica não muda apenas as palavras utilizadas para descrever um fenômeno. Ela modifica também aquilo que se procura observar, as perguntas formuladas diante de um sintoma e os elementos considerados relevantes para compreendê-lo. Quando manifestações antes reunidas sob o nome de histeria passam a ser distribuídas entre diferentes categorias diagnósticas, modifica-se também o modo de recortá-las e, consequentemente, de produzir saber sobre elas.
É possível perceber isso na própria transformação da psiquiatria ao longo do século XX. Diante das dificuldades de confiabilidade dos diagnósticos e da necessidade de estabelecer uma linguagem compartilhada entre pesquisadores e clínicos, ganhou força a valorização de critérios observáveis, descritivos e reprodutíveis. Esse movimento trouxe ganhos importantes para a pesquisa e para a comunicação entre profissionais. Ao mesmo tempo, colocou em primeiro plano uma determinada maneira de construir o objeto da psiquiatria: quanto mais claramente um fenômeno pudesse ser descrito, delimitado e investigado, maior seria a possibilidade de produzir sobre ele um conhecimento verificável.
A questão começa justamente aí. O que acontece com aquilo que não se deixa apreender inteiramente por esses procedimentos?
Histeria, classificação e ciência
A relação entre histeria e corpo antecede o nascimento da psiquiatria moderna. A própria etimologia do termo, derivada de hystera, útero, testemunha a longa tradição que procurou localizar no corpo feminino a causa de manifestações consideradas enigmáticas. Sua história foi igualmente marcada pela suspeita de simulação e pela deslegitimação do sofrimento.
A passagem pelo trabalho de Charcot constitui um momento decisivo. Ao estudar sistematicamente as manifestações histéricas na Salpêtrière e diferenciá-las, entre outros quadros, das crises epilépticas, Charcot contribuiu para conferir estatuto clínico a fenômenos frequentemente associados à simulação. A inclusão da histeria masculina em suas investigações produziu também um deslocamento em relação à tradição que vinculava a doença à anatomia feminina, aspecto destacado por Freud (1886/1996). Ao conceber essas manifestações como afecções funcionais, Charcot abriu um campo no qual a existência do sintoma já não dependia necessariamente da identificação de uma lesão anatômica correspondente.
É nesse terreno que Freud encontra a histeria. Nos Estudos sobre a histeria, Freud e Breuer (1893-1895/1974) recusam reduzir a ausência de explicação orgânica à inexistência ou falsidade do sintoma. Ao tomar essas manifestações como fenômenos que exigiam investigação e escuta, Freud desloca a questão do terreno exclusivamente orgânico e reconhece no sintoma uma formação articulada à história do sujeito e aos processos inconscientes. A realidade do sintoma deixa, assim, de depender da possibilidade de demonstrar uma lesão que o explique.
O percurso posterior da psiquiatria produz outros recortes. No DSM-I, de 1952, encontram-se as reações de conversão (neste momento há significativa influência da psicopatologia psicanalítica no manual) no DSM-II, de 1968, a neurose histérica permanece nomeada, dividida em subtipos conversivo e dissociativo. Com o DSM-III, publicado em 1980, ocorre uma ruptura importante: a histeria desaparece como categoria unificada, a neurose é retirada do manual e seus fenômenos são redistribuídos entre transtornos somatoformes e dissociativos. A transformação respondia, entre outros fatores, à crise de confiabilidade do diagnóstico psiquiátrico norte-americano e à busca por critérios capazes de aumentar a concordância entre profissionais e favorecer a pesquisa (Andreasen, 2007).
Essa reorganização não pode ser compreendida como processo exclusivamente técnico. Morais (2017) situa o DSM-III no esforço de consolidação da psiquiatria como especialidade médica, enquanto Ramos (2014) destaca a articulação crescente entre classificação diagnóstica, pesquisa psicofarmacológica e exigências regulatórias. Isso não autoriza reduzir os manuais a interesses econômicos ou institucionais, mas impede concebê-los como instrumentos exteriores às transformações históricas e epistemológicas da própria psiquiatria. A retirada da histeria é particularmente interessante porque seu desaparecimento nominal não corresponde ao desaparecimento dos fenômenos que ela nomeava. Catani (2014) mostra que as sucessivas nomenclaturas destinadas a circunscrever esse sofrimento expressam simultaneamente esforços de precisão e movimentos de fragmentação. A questão, portanto, não consiste em reivindicar o retorno da antiga categoria, mas em examinar o que se ganha e o que eventualmente se perde quando fenômenos antes articulados à relação entre sintoma, corpo e sujeito são redistribuídos em entidades diagnósticas independentes.
Essa transformação participa de uma mudança mais ampla nos modos de produção e legitimação do saber psiquiátrico. Bassols (2015) chama atenção para a crença de que haveria um saber já inscrito no real genético ou neuronal, cabendo aos instrumentos científicos progressivamente decifrá-lo. Nessa perspectiva, aquilo que ainda não se sabe corre o risco de ser tratado exclusivamente como déficit tecnológico provisório, e não como algo capaz de interrogar o próprio regime de conhecimento.
Na psiquiatria, essa tensão pode ser observada na expectativa depositada nas neurociências de produzir explicações cada vez mais abrangentes para os transtornos mentais. O Research Domain Criteria (RDoC), lançado pelo National Institute of Mental Health como alternativa à lógica categorial do DSM, propõe uma matriz de pesquisa organizada por domínios funcionais e sistemas neurobiológicos, articulando genes, moléculas, células, circuitos, fisiologia, comportamento e autorrelato. Laia e Aguiar (2017) chamam atenção para os efeitos de uma orientação na qual a objetivação pode adquirir primazia sobre a palavra do sujeito. A questão não está em investigar correlatos neurobiológicos, mas no que ocorre quando estes passam a constituir a condição privilegiada de inteligibilidade da experiência.
Essa crítica encontra ressonância no interior do próprio campo científico. Diniz e Leite (2024) discutem os limites do reducionismo biológico e do projeto de encontrar marcadores para todas as formas de sofrimento psíquico.
A histeria e a incompletude do saber
Até aqui, acompanhamos a histeria sobretudo a partir das transformações de seu lugar na medicina e na psiquiatria: sua passagem pela neurologia, sua importância para a descoberta freudiana e, posteriormente, sua fragmentação nas classificações diagnósticas. Há, entretanto, uma outra dimensão que interessa particularmente ao percurso deste texto. Para além das formas assumidas por seus sintomas e das diferentes maneiras pelas quais foram nomeados, a histeria estabelece uma relação particular com o saber.
Essa relação já estava presente, de algum modo, na cena inaugural da psicanálise. Diante de sintomas para os quais o saber médico de sua época não encontrava uma explicação anatômica suficiente, Freud não concluiu pela inexistência do fenômeno. Ao contrário, tomou essa insuficiência como ponto de partida para uma investigação. A histeria colocava o médico diante de algo que seu conhecimento não conseguia explicar e, ao fazê-lo, exigia dele novas respostas. Há aí uma característica que permanecerá importante para Lacan: a histeria não se situa simplesmente fora do saber. Ela se dirige a ele, interroga-o e o coloca a trabalhar.
É essa relação que ganha uma formulação particular no Seminário 17, quando Lacan (1969-1970/1992) propõe os discursos do mestre, da histérica, do universitário e do analista. Ao falar em “discurso”. Os discursos formalizam diferentes modos de laço social, isto é, diferentes maneiras pelas quais se articulam posições de sujeito, saber, verdade e gozo. É por isso que o discurso histérico não se confunde com o diagnóstico de histeria. O que está em questão é uma determinada maneira de se dirigir ao saber e de fazê-lo operar.
No discurso histérico, o sujeito se apresenta a partir de sua divisão e dirige ao mestre uma pergunta acerca daquilo que ele próprio não consegue saber sobre si. O mestre é, assim, convocado a responder. Poderíamos dizer, simplificando: diga-me o que tenho, diga-me o que sou, diga-me por que isso acontece comigo. A pergunta supõe que exista, do lado do outro, um saber capaz de respondê-la. É justamente essa suposição que coloca o mestre a trabalhar e faz com que um saber seja produzido.
A operação, porém, não termina com a resposta. Algo permanece sem ser recoberto pelo saber produzido e pode dar lugar a uma nova interrogação. Por isso, seria impreciso dizer que a histérica simplesmente denuncia que o mestre não sabe. Se assim fosse, não haveria razão para continuar interrogando-o. A operação é mais paradoxal: ela supõe um saber no mestre, exige que ele o produza e, ao mesmo tempo, faz aparecer a impossibilidade de que esse saber ofereça uma resposta definitiva àquilo que causa sua pergunta.
A incompletude do saber não significa, portanto, ausência de saber. O que a estrutura do discurso histérico permite colocar em evidência é a diferença entre produzir um saber e supor que esse saber possa dizer tudo. Há uma distância entre a resposta produzida e a verdade que a pergunta parecia exigir. É essa distância que impede o saber de se fechar sobre si mesmo e pode, ao mesmo tempo, mantê-lo em movimento.
É por essa via que se torna possível compreender a aproximação feita, em diferentes momentos do ensino de Lacan, entre o discurso histérico e a produção científica de conhecimento. A aproximação pode parecer estranha à primeira vista. Afinal, a histeria foi frequentemente apresentada como aquilo que perturba o saber médico, enquanto a ciência estaria justamente do lado da produção desse saber. Mas talvez seja precisamente aí que se encontre o ponto de proximidade. A ciência não avança apenas pela acumulação de respostas. Um resultado que contraria uma hipótese, um fenômeno que não se comporta segundo o modelo disponível ou uma explicação que se mostra insuficiente podem tornar-se causa para uma nova investigação. Quinet (2002) observa, nesse sentido, que a ciência, enquanto estrutura de produção de saber, encontra no discurso histérico uma de suas aproximações possíveis; Beer (2015) recupera diferentes momentos do ensino de Lacan nos quais essa relação é formulada.
Não se trata de dizer que ciência e discurso histérico sejam equivalentes, mas de destacar uma posição diante da insuficiência do saber: aquilo que escapa a uma resposta pode colocar o saber novamente a trabalho. Sob essa perspectiva, o não saber não representa necessariamente o fracasso do conhecimento; pode constituir uma de suas condições de produção. É também aqui que a contribuição de Beer (2015) permite introduzir uma diferença importante. A ciência enquanto prática de produção de conhecimento não se confunde necessariamente com os lugares que o significante “ciência” pode ocupar no laço social. O saber científico circula, organiza práticas, orienta decisões e pode ser convocado como fonte de autoridade. A teoria dos discursos permite, assim, pensar que a ciência não precisa ocupar sempre a mesma posição discursiva.
Ela pode se aproximar do discurso histérico quando aquilo que não sabe funciona como causa para a produção de novo conhecimento. Mas o saber científico pode também apresentar-se desligado das condições e dos limites de sua própria produção, passando a funcionar como se fosse capaz de encerrar a pergunta que lhe deu origem. É nesse deslocamento que podemos observar o cientificismo, isto é, quando a confiança na potência desse método se transforma na expectativa de que o saber científico possa oferecer uma explicação completa do sujeito, de seu corpo e de seu sofrimento. Como observam Dunker e Iannini (2023), é importante não confundir o caráter revisável e aberto da prática científica com a pretensão de fazer da ciência uma resposta suficiente para todos os campos da experiência.
A histeria ocupa uma posição particularmente incômoda diante dessa expectativa. Ao longo de sua história, suas manifestações insistiram justamente onde a correspondência esperada entre sintoma e lesão, corpo e organismo, manifestação clínica e explicação encontrava dificuldades. A histeria torna visível a diferença entre reconhecer a realidade de um fenômeno, produzir conhecimento sobre seus mecanismos e supor que esse conhecimento possa esgotar aquilo que está em jogo para um sujeito. É possível conhecer cada vez mais sobre os mecanismos envolvidos em um sintoma sem que isso torne dispensável a pergunta pelo lugar que ele ocupa em uma história singular.
Talvez seja nesse sentido que possamos dizer que a histeria ainda denuncia. Não porque desmascare a falsidade do saber médico, nem porque possua uma verdade que a ciência seria incapaz de alcançar. Sua força está em outro lugar: ela faz o saber trabalhar e, no mesmo movimento, impede que ele se confunda inteiramente com a verdade. A resposta é necessária, o conhecimento importa, a investigação produz efeitos decisivos — e, ainda assim, algo pode permanecer sem ser recoberto.
É justamente sob essa perspectiva que o transtorno neurológico funcional adquire interesse particular. Seu desenvolvimento contemporâneo não precisa ser lido como simples retorno da antiga histeria, nem como sua definitiva superação. Ele oferece, antes, uma nova configuração para uma questão antiga: o que acontece quando o saber encontra, no corpo, um fenômeno que o obriga a continuar investigando?
O transtorno neurológico funcional e o retorno de uma questão
Com a publicação do DSM-5, em 2013, o transtorno de conversão passa a figurar como transtorno do sintoma neurológico funcional, no interior de uma reorganização mais ampla da antiga classe dos transtornos somatoformes. O manual procura afastar-se de critérios exclusivamente negativos e valorizar sinais clínicos de incompatibilidade com doenças neurológicas reconhecidas. No campo dos transtornos de sintomas somáticos, a presença ou ausência de explicação médica deixa de constituir o eixo exclusivo do diagnóstico, que passa a considerar também pensamentos, afetos e comportamentos relacionados aos sintomas (American Psychiatric Association, 2014).
Essas transformações comportam ganhos clínicos que devem ser reconhecidos. A redução da dependência de um diagnóstico por exclusão pode favorecer maior legitimidade dos sintomas e diminuir a associação automática entre ausência de lesão e simulação. Ambra et al. (2018) mostram, além disso, que as mudanças de nomenclatura devem ser situadas em uma história na qual o termo histeria acumulou sentidos pejorativos e foi progressivamente substituído por designações mais descritivas. Seria, portanto, insuficiente interpretar a passagem da conversão ao TNF simplesmente como apagamento da histeria.
A expressão “neurológico funcional”, entretanto, produz um deslocamento interessante: inscreve o quadro no território da neurologia ao mesmo tempo que preserva, pelo qualificativo “funcional”, manifestações que não pressupõem necessariamente uma lesão estrutural correspondente. Paralisias, tremores e crises não epilépticas podem ser clinicamente reconhecíveis sem que sua inteligibilidade dependa da demonstração de uma alteração anatômica capaz de estabelecer correspondência direta entre sintoma e lesão.
Não se pretende, com isso, estabelecer equivalência entre histeria e transtorno neurológico funcional. Uma categoria nosográfica e uma estrutura clínica pertencem a registros distintos, e a presença de um sintoma funcional não autoriza inferir uma estrutura histérica. Interessa, antes, perguntar o que ocorre quando manifestações que historicamente interrogaram a fronteira entre corpo e psiquismo são reinscritas sob o significante “neurológico” e quais perguntas essa reinscrição favorece ou deixa em segundo plano.
Há aqui uma circularidade histórica interessante. No final do século XIX, Charcot procurava distinguir as manifestações histéricas das crises epilépticas e conferir-lhes estatuto clínico no interior da neurologia. É nesse terreno que Freud encontra a histeria e inicia um percurso que, antes de conduzi-lo à psicanálise, passa pela tentativa de construir uma explicação neurológica do funcionamento psíquico. No Projeto para uma psicologia científica, de 1895, Freud procura formular processos psíquicos por meio de um modelo neuronal. A insuficiência desse empreendimento diante dos fenômenos encontrados na clínica participa do movimento pelo qual se torna possível a construção de outro campo de investigação.
Mais de um século depois, crises não epilépticas, paralisias, tremores e outros sintomas funcionais retornam de maneira significativa ao território da neurologia, agora acompanhados por neuroimagem funcional e hipóteses relativas a circuitos cerebrais. A aproximação histórica não autoriza equiparar o projeto neurológico freudiano às neurociências contemporâneas. Permite, porém, reconhecer a persistência de uma questão: em que medida o aperfeiçoamento dos instrumentos de investigação do cérebro modifica o impasse colocado por manifestações corporais que não se reduzem à correspondência entre sintoma e lesão?
O desenvolvimento das neurociências, a formulação de critérios positivos e a consolidação do TNF como campo de pesquisa modificaram significativamente as condições de reconhecimento e tratamento desses fenômenos. Estabelecer correlações funcionais e formular hipóteses fisiopatológicas responde a questões fundamentais acerca dos mecanismos envolvidos, mas não torna necessariamente dispensáveis outras interrogações: que lugar determinado sintoma ocupa na história de um sujeito? Como se articula aos acontecimentos de sua vida e aos modos singulares pelos quais seu corpo é afetado? Essas perguntas não concorrem com a investigação neurobiológica; pertencem a registros distintos.
Nesse sentido, aquilo que retorna não é a histeria como categoria diagnóstica, mas uma questão que ela historicamente introduziu no campo do saber: a existência de um corpo sintomático que não coincide integralmente com o organismo objetivado pela medicina e de uma experiência que não se esgota no conhecimento produzido sobre seus mecanismos.
A formulação lacaniana da “falha epistemo-somática” oferece um operador particularmente importante para pensar esse problema. Em “O lugar da psicanálise na medicina”, Lacan (1966/2001) designa por esse termo um efeito do progresso da ciência sobre a relação da medicina com o corpo. A expansão do conhecimento e das possibilidades de intervenção sobre o organismo não elimina uma dimensão do corpo que não é integralmente capturada por esse saber. Para Lacan, a dimensão do gozo permanece excluída da relação epistemo-somática. Não se trata, portanto, de recusar o organismo ou o conhecimento produzido sobre ele, mas de reconhecer que o corpo do sujeito não se esgota na extensão anatômica ou fisiológica.
O TNF torna essa falha especialmente visível. Há sofrimento, incapacidade e, por vezes, perda importante de autonomia sem que uma lesão estrutural seja condição necessária para reconhecer o fenômeno. A história da histeria mostra como, em diferentes momentos, a impossibilidade de explicar um sintoma pôde ser deslocada para uma suspeita acerca de sua veracidade. Os critérios positivos contemporâneos para o TNF oferecem uma resposta importante a esse problema, mas não eliminam a pergunta acerca do estatuto conferido àquilo que permanece sem explicação suficiente.
Considerações finais
A retirada da histeria das classificações psiquiátricas deve ser situada no interior de transformações mais amplas da psiquiatria, particularmente da consolidação de uma racionalidade descritiva e operacional e da crescente centralidade atribuída aos modelos neurobiológicos. Se a histeria perdeu a unidade nosológica que historicamente a caracterizou, os impasses que introduziu no campo médico não desapareceram com sua fragmentação.
A emergência contemporânea do transtorno neurológico funcional torna essa permanência especialmente visível. As mudanças terminológicas, a formulação de critérios positivos e os conhecimentos produzidos acerca dos mecanismos envolvidos nesses sintomas constituem avanços que não devem ser desconsiderados. Ao mesmo tempo, manifestações corporais que não se deixam apreender pela correspondência direta entre sintoma e lesão continuam a perguntar que posição um campo de saber assume diante daquilo que não consegue integrar plenamente aos seus modelos explicativos.
A aproximação entre ciência e discurso histérico permite formular o problema de outra maneira. Enquanto pesquisa, a ciência pode encontrar justamente na insuficiência do saber constituído a causa para produzir novos conhecimentos. A tensão aparece quando essa abertura cede lugar à expectativa de uma explicação capaz de esgotar seu objeto.
A psicanálise tampouco responde a esse impasse restituindo um conhecimento que faltaria à medicina. Sua contribuição consiste em sustentar que o não saber não precisa ser imediatamente recoberto e que a ausência de uma resposta antecipada pode constituir condição para a construção do caso.
A atualidade da histeria pode, assim, ser situada para além de sua sobrevivência nosológica. O que permanece vivo é a operação pela qual ela faz aparecer a insuficiência de um saber que se pretende completo: a não coincidência entre organismo e corpo, entre classificação e sujeito, entre o conhecimento produzido sobre um sintoma e a verdade que ele pode assumir em uma história singular. Nesse ponto, a histeria conserva uma afinidade paradoxal com aquilo que há de propriamente científico na ciência: a possibilidade de transformar a falha do saber em pergunta.
Referências
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