A mutabilidade histérica: permanência de um desafio tão antigo quanto contemporâneo
por Thiago Marsaioli Coelho
É raro ver, ou mesmo escutar, pacientes com conversões histéricas claras e decididas chegando aos consultórios particulares ou mesmo buscando ajuda psicoterapêutica ou psicanalítica. Há discursos dizendo que esta forma clássica - as histéricas de Charcot, Breuer e Freud - teria desaparecido ou se delimitado a um certo tempo-espaço e que hoje a histeria teria ganhado outras roupagens e configurações pato-plásticas. Ambas parecem verdadeiras e parecem coexistir, isto é, se sempre não coexistiram, mas não deixa de chamar atenção que nos discursos mais contemporâneos, “a boa e velha histeria de conversão” ficou mais apagada, menos evidente, quase como um dado arqueológico da psicanálise.
Mesmo Lacan, chegou, no desenvolver de seu ensino, a preconizar o fim do ataque de conversão, para ele “teatro ou circo da histeria”, afirmando que a difusão do discurso psicanalítico e do desvelamento do sentido das histerias de conversão teriam restituído a verdade à histeria (POLLO, 2020). Outro ponto a ser levantado é acerca, não do saber psicanalítico e sua difusão, mas do próprio saber médico, ou seja, que no último século o conhecimento acerca da anatomia e do funcionamento do corpo humano foi não só aprimorado pelos clínicos, mas propagado socialmente, tornando-se, por exemplo, dado obrigatório nos currículos escolares. “Somos mais safos no que tange o saber anatômico e fisiológico” afirma Iaconelli em uma entrevista de 2021, dizendo que as conversões hoje, ainda permanecem - diferente talvez do que Lacan havia preconizado -, mas não seriam tais como os casos clássicos, exatamente por este saber orgânico ventilado. Será mesmo? A histeria se reiventa, assim como o tempo também o faz, mas onde estariam as histéricas de Freud hoje?
A história parece se repetir pois, mesmo apesar de um século de difusão do saber psicanalítico, é para os hospitais e ambulatórios neurológicos que o ataque histérico se dirige. As histerias de conversão ainda resistem, mostrando que ainda têm algo a dizer, que nem tudo foi esclarecido ou desvelado. O saber médico se aprimorou, o psicanalítico também. De fato, somos mais safos no que tange nossa anatomia e nosso psiquismo, mas não é frente a um saber, que se mostra completo, que a histeria vem furar? Não é sobre esse resto, que sempre falta - que igualmente a perturba, mas a move e que não se pode deixar de notar, que a histeria se dinamiza? Então, o que histeria tem a denunciar hoje?
Frente a tais quadros, surgem também questões clínicas: como propor um enquadre analítico e um trabalho para um paciente com essa psicodinâmica? Como ouvir um paciente que localiza todas as fontes de seu sofrer em seu corpo e que, muitas vezes, pode sentir-se atacado, ou deslegitimado, ao propormos o caminho inverso?
Paradoxalmente, são os casos mais clássicos, remontando ao nascimento da psicanálise. Foi o que Freud fez e de onde toda uma nosologia e nosografia psicanalítica pôde surgir: a partir da escuta das histerias de conversão e os desafios que endereçavam ao saber médico-científico da virada do século XIX para o XX. Este é um desafio tão antigo quanto contemporâneo diante do qual o ambulatório se encontra.
O SOMA é um ambulatório multidisciplinar composto por um equipe de: psiquiatras, psicólogos, psicanalistas, fisioterapeutas, eutonistas e neurologistas, sendo estágio obrigatório aos residentes de psiquiatria do primeiro ano de formação e optativo para outras áreas. Os pacientes chegam por encaminhamento interno de outros ambulatórios e áreas do HCFMUSP, passando por um processo de triagem e entrevistas com psiquiatria e neurologia. Neste momento inicial, são descartadas qualquer hipótese de causalidade orgânica ou exclusivamente orgânica que justifique o quadro clínico.
Os exames neurológicos lembram bastante as descrições de Freud em Estudos sobre a histeria (1895): toques, desafios aos pacientes, algo que parece sugestivo como: levante esta perna e não a outra; pegue essa caneta com tais dedos, agora com estes, troque; faça força contra minha mão esquerda, mas suavize a direita. Enfim, muito do que parecia sugestão e misticismo do fundador da psicanálise, na verdade, era neurologia e diagnóstico diferencial. O exame neurológico é ponto fundamental para aceitação e início do tratamento, uma vez que, tal como no fim do séc. XIX, no Hospital Salpêtrière, as conversões, em sua maioria, configuram-se em alterações nas áreas sensório-motoras, tais como anestesias, paralisias ou tremores. Claro que a escuta clínica também fornece dicas se trata-se de um dano neurológico ou conversivo. Se há deslocamento ou um caminhar do sintoma (seja ele paralisia ou tremor) pelo corpo, é muito provável que seja uma conversão, pois está inscrito na ordem simbólica do corpo ou anatomia fantasmática e não na anatomia dos circuitos e ligações neurológicas.
Falar em corpo simbólico, para alguns autores, poderia beirar a redundância ou, segundo Lacan “não se trata de fazer metáfora”, pois qualquer organismo que do pedaço de carne chegou a fazer um corpo, já está tão constituído de órgãos, tecidos e células quanto de frases, significantes e histórias. É neste processo de corporeificação que o soma (da anatomia e fisiologia) passa a ser corpo - e corpo, para a psicanálise, é o corpo que subverte a fisiologia constituindo-se erógeno e pulsional. De acordo com Lindenmeyer (2015)
Freud colocará em evidência a visão de um corpo habitado por fantasmas inconscientes, legitimado por uma sexualidade infantil, esta última sustentada pelas forças pulsionais (...) Assistimos ao nascimento da psicanálise e da ideia de que uma intensa vida fantasmática apoia-se sobre a anatomia corporal. Anatomia esta, que é uma cena que recobre uma outra: daí sua potencialidade de transformar-se em um “teatro” onde conflitos inconscientes diversos são atuados. Através de sua posição de encruzilhada, por onde circula a sexualidade, o corpo se presta aos fantasmas os mais variados. (p.434)
Na histeria, portanto, há um corpo que “zomba” da anatomia e desafia o saber médico. Talvez daí os sentimentos hostis e negativos que as histéricas provocam e igualmente são vítimas no decorrer da história da medicina. O sintoma orgânico, comprovável, examinável e reconhecido pelo médico ganha muito mais valor e importância do que um outro sintoma no qual a via de legitimidade baseia-se na escuta e descrição daquele que o sofre. A partir de um exame, logo, de um diagnóstico, o clínico sabe o que fazer e como conduzir um caso, através da escuta de uma história já adentramos em outro terreno.
Bom, o que parece ocupar o centro do palco é o corpo. Em diferentes formas, focos, desenhos e apresentações, o SOMA trabalha com pacientes que se valem do corpo para viver, sofrer e contar suas histórias. Interessa-nos a origem, a construção, a causa e o investimento em um sintoma e não apenas seu diagnóstico e sua extirpação. A histeria hoje, em suas múltiplas facetas, pode-se apresentar não só nos quadros conversivos, mas também neles. E de fato, há ainda muita conversão pedindo para ser escutada nos hospitais-escolas e públicos. Aqui parece ser necessário trazer o analisador de classe social para o debate. Talvez para os consultórios particulares de grandes metrópoles como Paris ou São Paulo, a preconização de Lacan ou, outros debates acerca do fim da conversão clássica, devido ao acesso ao conhecimento anatômico/psíquico humano e o desvelamento dos sentidos inconscientes de tais sintomas possa proceder, mas e quando este acesso é precário ou não é disponível?
REINERT et al (2016) aponta que há estudos1, por exemplo, relacionados a presença e suscetibilidade para somatização em populações latino-americanas, apontando que os grandes centros das conversões seriam os países do sul global, principalmente a América Latina. Os autores do estudo referido propõem uma relação entre as culturas hispânicas/latinas e a tendência à somatização. REINERT et al (2016), entretanto, vai além ao analisar outros dados e colocá-los na equação, complexificando a análise e desmentindo uma falsa correlação entre latinos e somatização
Quanto à variável raça/cor, o presente estudo observou predomínio de mulheres pardas (...) Entre os fatores de risco descritos na literatura para a ocorrência de transtorno somatoforme, encontram- se fatores psicossociais, como educação e renda. Estudos qualitativos como o de Silva e Queiroz (2006) demonstraram uma relação entre queixas físicas, migração e problemas econômicos e sociais no Sudeste do Brasil. Raças hispânicas são frequentemente associadas a prevalência de somatização, porém estudos confrontam essa relação e sugerem que a incidência de somatização é relativa ao nível socioeconômico e devido a diferença de prevalência da raça latino-americana nas classes sociais mais baixas, pode surgir essa falsa relação (Tófoli, Andrade & Fortes, 2011). (p.98)
Ou seja, o que a autora aponta não é uma relação entre culturas, formas de expressão e línguas latinas, mas sim problemas socioeconômicos, como acesso à renda e à educação, como fatores de risco para transtornos somatoformes/conversivos. Outra consideração a ser pensada, além da questão socioeconômica, é ideia trazida por Iaconelli (2021), isto é, mesmo pensando que ainda existam conversões, mas elas seriam menos claras e mais difusas, portanto, de maior desafio diagnóstico - tais como fibromialgia e outras dores crônicas e difusas - isto parece ser uma verdade para certos enquadres, em outros, a clássica conversão - paralisias, tremores, anestesias, cegueiras etc - ainda se revela.
A dificuldade diagnóstica e, portanto, o desafio ao clínico não parece ser indiferente nesta equação: diferente de uma paralisia sem qualquer fundamento neurológico, um paciente que se queixa de dores nas fibras musculares de forma difusa e crônica já transformou seu sintoma em algo menos cognoscível para o saber instituído. Sobre a fibromialgia, faz-se uma questão: trata-se de uma diagnóstico para medicina ou para psicanálise/psicologia? Os desafios ainda estão na mesa e seus sintomas dividem opiniões dentro da medicina: a pretensão de buscar uma causa orgânica que justifique as dores ou a de serem tomadas como imaginárias (HUDSON, 1989 em MARQUES E SILVA; BERNARDINO, 2006).
Marques e Silva e Bernardino (2006) defendem uma ideia bem diferente, compreendendo a fibromialgia como uma histeria contemporânea em seu aspecto mutante. Para além das similaridades em suas apresentações, o mais gritante parece ser os tratamentos propostos para a doença: exercícios, sendo o mais indicado a hidroginástica e outras formas de relaxamento. Para as autoras, torna-se impossível não remeter às sessões de hidroterapia e à cura pelo repouso, indicadas pelos médicos em 1896.
Em 1896, quando Freud se fixou em Viena para estabelecer sua clínica de doenças nervosas, iniciou o tratamento das histerias com os métodos comumente recomendados, como a hidroterapia, massagens e cura pelo repouso. Quando esses métodos se revelaram insatisfatórios ele voltou à hipnose. Porém pouco a pouco foi abandonando o hipnotismo, o que o fez ampliar ainda mais sua compreensão dos processos mentais, utilizando-se do método da associação livre. (MARQUES E SILVA; BERNARDINO, 2006, p. 274)
A partir daí, o mais anacrônico, ou mesmo irônico, revela-se: a nova aposta terapêutica para fibromialgia é a hipnose! Parece um mundo pré-freudiano, em que a história se repete e um caminho parecido pede passagem. Basta saber se, desta vez, também será possível nos deslocarmos do sintoma rumo à palavra.
REFERÊNCIAS
BERNARDINO, Leda Mariza Fischer; SLOMPO, Thais Krukoski Marques e Silva. Estudo comparativo entre o quadro clínico contemporâneo “fibromialgia” e o quadro clínico “histeria” descrito por Freud no século XIX. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, São Paulo, v. 9, n. 2, p. 263-278, jun. 2006. [s.n.]
DOR CRÔNICA E OUTRAS HISTERIAS MODERNAS. Podcast Meu Inconsciente Coletivo. [S.l.]: data de publicação. Podcast. Disponível em: https://open.spotify.com/episode/0rKWMHy0QugaqToqmiA5UQ?si=d2d15e27098f450c. Acesso em: 06 dez. 2025.
FREUD, Sigmund (1888). Histeria. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 1.
FREUD, Sigmund (1895). Estudos sobre a histeria. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 2.
LINDENMEYER, Cristina. O corpo entre sintoma e cultura. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, São Paulo, v. 18, n. 3, p. 431-444, jul./set. 2015.
POLLO, Vera. A histeroistória ou a histoeria ontem e hoje. Trivium: Estudos Interdisciplinares, Rio de Janeiro, ano XII, número especial, p. 78-84, 2020.
REINERT, Ana Paula Rezzo Pires; RÊGO, Rafisa Moscoso Lobato; PIRES, Rômulo Cesar Rezzo; SILVA, Vanalda Costa.Transtornos somatoformes (manifestações histéricas) em mulheres atendidas em hospital psiquiátrico de São Luís, Maranhão. Psicologia em Pesquisa, Juiz de Fora, v. 10, n. 2, p. 93-101, jul./dez. 2016.