“Sonata de Outono”: a psicanálise no contexto da residência médica
por Rodrigo de Oliveira Antonio
Para além da assistência aos pacientes e da produção de pesquisas, o ambulatório Soma cumpre um papel importante para a formação médica. Os residentes passam conosco todo o seu primeiro ano de especialização em psiquiatria e os casos relacionados aos transtornos somáticos mostram-se desafiadores para a racionalidade médica.
Sensibilizar os médicos recém formados para uma escuta empática e para a dimensão subjetiva do sofrimento de seus pacientes tem, no Soma, uma interlocução direta com a psicanálise. Contudo, entendemos que a transmissão da psicanálise não pode se dar meramente por meio de um aporte teórico, mas, sobretudo, nas aulas, nas supervisões e nas discussões de casos clínicos, pelo engajamento a uma ética. Nas condições educacionais específicas de um programa de residência, não se pode formar psicanalistas, mas podemos apontar articulações que promovam o desenvolvimento de nossos residentes naquilo que é pertinente a uma perspectiva psicodinâmica em saúde.
Nesse sentido, a relação com a psicanálise ao longo do curso instiga os nossos alunos a se aprofundarem numa leitura sensível de seus atendimentos, tanto para a compreensão das múltiplas dimensões do histórico de sofrimento daqueles que atendem, como das suas próprias implicações subjetivas ao atender. Os trabalhos de conclusão de estágio no Soma geralmente reproduzem tais dimensões por meio de reflexões escritas, muitas das vezes apoiadas em modalidades artísticas, como a poesia e a pintura. Nos últimos anos, temos nos apoiado também no cinema como recurso didático.
Cinema na sala de aula: a psicanálise entre explicar e expressar
Atualmente, trabalhar com a psicanálise passa muitas vezes por abdicar da tentação de explicar. Há certa compreensão vulgar de que a psicanálise explica ou pode explicar tudo e todos. No contexto hospitalar, em que a autoridade do médico muitas vezes serve menos de ponte de contato com os doentes e mais como tapume que bloqueia o estabelecimento de vínculos com potencial terapêutico, a psicanálise pode servir também como apenas outra ferramenta em que a interpretação (por mais rebuscada que seja) contribui para esse efeito de afastamento.
Nesse sentido, um ensino conteudístico e apressado de termos e conceitos da psicanálise pode ser prejudicial à formação clínica dos residentes. Em vez do palavrório explicativo, uma transmissão pautada por uma ética da escuta é fundamental. Assim como a clínica, a educação em saúde pode, em vez de explicar, buscar ser capaz de expressar. Em grande medida, a desconexão entre ideais e afetos não repercute apenas nas dores, paralisias e somatizações de nossos pacientes, mas pode acometer nosso próprio ofício de médicos, psicólogos e educadores.
Para driblar tal efeito, cabe reconhecer aquilo que Freud também reconheceu: é muitas vezes necessário, diante do artista, depor as armas, e compreender que o romancista, o dramaturgo, o compositor de música popular, ou o cineasta possuem meios expressivos mais agudos que antecedem as nossas capacidades de análise e que podem contribuir com a nossa tarefa.
Corpos em cena
Nesta linha de conduta, o filme “Sonata de Outono”, do cineasta e dramaturgo sueco Ingmar Bergman, vem sendo exibido em aulas do Soma, como forma expressiva de debater a maneira pela qual os conflitos psíquicos e intersubjetivos dão notícia da condição de nossos pacientes. A partir da densidade do trabalho de atrizes do calibre de Liv Ullmann e Ingrid Bergman, é possível capturar como o sufocamento, o silenciamento, e o dilaceramento das relações faz ponte com a corporeidade das personagens.
Há muitas leituras psicanalíticas dos filmes de Bergman. Artigos como “A travessia da angústia na Trilogia do Silêncio”, de Maysa Puccinelli e Daniela Chatelard, ou a tese de doutoramento da professora do Instituto de Psicologia da USP, Marina F. R. Ribeiro, especificamente dirigida a “Sonata de Outono”, “De mãe em filha: a transmissão da feminilidade”, são exemplos bem sucedidos disto. Em outra oportunidade, poderei retornar a esse blog com uma leitura específica deste filme em relação com algumas outras obras literárias, a partir da lente de análise do texto “A criança mal acolhida e sua pulsão de morte”, do psicanalista húngaro Sándor Ferenczi, tendo em vista a pertinência de uma leitura que vincule a compreensão dos transtornos somáticos a uma clínica do trauma.
Hoje sublinhamos apenas um aspecto fundamental que a trama e as performances cênicas deste filme trazem em primeiro plano: uma leitura da corporeidade, para além das palavras, é capaz de expressar o que foi reprimido, silenciado ou desmentido. Como nos conta Ingmar Bergman em sua autobiografia, “Lanterna mágica”: “íamos fazer juntos uma leitura do roteiro de “Sonata de Outono”. Ingrid Bergman leu seu papel com voz de trovão, gestos e caretas. Tudo já estava treinado diante do espelho. Foi um choque. Fiquei com dor de cabeça, a continuísta saiu e ficou chorando junto à escada, de horror”.
Nem todos os dilemas afetivos de atrizes e diretor vieram à tela ao final. Mas é fácil compreender que, mais agudamente do que uma tese de doutorado ou um compêndio de psicanálise, algumas cenas são capazes de traduzir a dor daquilo que não é dito. Mãe e filha se encarando sob o som massacrante de dores inauditas, um piano que não toca apenas música: são cenas que podem ser impressas na sensibilidade de nossos jovens médicos. Assim esperamos!
Referências
Bergman, I (1996). Imagens. São Paulo: Martins Fontes;
Bergman, I (2025). Lanterna mágica - autobiografia. São Paulo: Cosac;
Puccinelli, Maysa, & Chatelard, Daniela. (2016). A travessia da angústia na Trilogia do Silêncio. Jornal de Psicanálise, 49(91), 241-256;
Ribeiro, Marina Ferreira da Rosa (2009). From mother to daughter: transmission of feminineness. 2009. 184 f. Tese (Doutorado em Psicologia) - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo.